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Facção Cruzmaltina

"Um rei mal coroado,
não queria o amor no seu reinado,
pois sabia, não ia ser amado".
(Geraldo Azevedo)

Não conheço um único vascaíno que goste de Eurico Miranda. Aliás, não encontrei quem o detestasse menos que eu. Nisso, e somente nisso, consiste a minha esperança, que foi severamente massacrada na madrugada de hoje.

Essa era a noite da libertação, mas não... Essa era a noite da mudança, da virada, da guinada, mas não... Essa era a noite do futuro, mas foi do passado, que insiste em se fazer presente, porque ele insiste em se fazer presente...

O Vasco parou no tempo e permanece nas trevas. Não acompanhou a virada do século e o novo paradigma que marcou as administrações empreendedoras e dinâmicas dos grandes clubes brasileiros.

Essa nação, que mais vem parecendo uma facção, insiste em querer se encolher, cujo chefe perpétuo e paranoico mais se preocupa em reinar no gueto que chamou de seu - o São Januário -, relegando ao abandono e sofrimento os apaixonados que fazem a quinta maior torcida do Brasil, presentes nas cinco regiões e cinco continentes. Esse mafioso do charuto, que jamais fez um único gol ou sequer vestiu a camisa em campo, chegou a expulsar da tribuna de honra do estádio o nosso maior ídolo e goleador, Roberto Dinamite, apunhalando injustamente e sem perdão mais de 7 milhões de corações cruzmaltinos! Com quem está a honra, meus amigos? Quem merece o trono?

Não acompanho a política interna do Vasco, assim como a grande maioria. Para nós, é incompreensível como esse mandachuva ainda permanece comandando e destruindo o clube, sem que tenha sido jogado portão à fora, pelos braços democráticos do povo, há muitos anos... Não entendemos como esse falsário continua vendendo ilusões e promovendo corrupções, enganando e comprando pessoas e votos... Ninguém quer mais se aproximar dele (exceto o gueto). O time de basquete, por exemplo, planejava angariar R$ 8 milhões em patrocínio, mas não encontrou uma única marca que quisesse se associar ao clube! Apesar de tudo, a facção não sabe viver sem ele...

A administração do Vasco segue a toada da política do Rio de Janeiro... E, se assim continuar, e se continuar por muito tempo, essa facção poderá atrofiar o time de glórias em um clube de gueto, mediano e regional, com piscinas e quadras poliesportivas para os associados... Aos domingos, veremos Eurico Miranda sugando uma maminha na tradicional churrascaria centenária, sentado numa cadeira de plástico reforçada, sentindo-se um rei...

Trans

Fiquei um pouco impressionado quando ouvi Thammy (filha de Gretchen) falar da alta ocorrência de suicídio entre os transexuais. É bom explicar: o gay é um homem, que quer ser homem, se sente homem e gosta de outros homens. A lésbica, da mesma forma: ela gosta de ser mulher, se vê mulher, e deseja mulheres. Mas o trans é diferente.

São homens (biológicos) que se percebem mulher e querem ser reconhecidas como tal. E vice-versa. Ou seja, a identidade do sexo não corresponde à do gênero. Muitos - não todos - se sentem inconformados com a própria anatomia sexual: não suportam o seu pênis, não toleram sua vagina, repudiam os próprios seios e por aí vai... Esse conflito torturante, indesejável e incontrolável, somado às pressões da família, às tradições, à exigência dos padrões, aos conceitos e pré-conceitos da sociedade, levam muitos a tentar diminuir o sofrimento, preferindo a morte... Parece que são muitos...

Pensando mais, acho que às vezes somos meio trans também... Porque essa não identificação consigo mesmo nos acompanha, aqui e acolá, em tantas situações, em maior ou menor grau... Quando permanecemos naquele trabalho humilhante, quando suportamos aquele marido violento. Quando fazemos o curso que não gostamos, quando investimos na carreira que sabemos que não tem nada a ver com a gente... Quando namoramos sem paixão, quando casamos sem amor... Quando não temos coragem de expressar nossas reais opiniões, por medo de não concordarem com elas, para não descobrirem quem somos de verdade... Às vezes a gente esconde tanto, que o que sobra para os outros já nem nos revela mais...

Tem gente que também se mata quando olha para si e se dá conta que encaminhou sua vida para lugares, pessoas, atividades e rotinas... tão fora de sua órbita, que, perdido no tempo e no espaço, já nem se reconhece mais...

E a vida passou...

E não passamos de uma vaga lembrança de nós mesmos...

E não há mais tempo (nem memória) pra descobrir quem a gente era...

E a gente, simplesmente... Não é mais.

Eu sigo meu caminho torto. Meio trans, meio eu. Me perdendo no outono, e me achando - de novo - no inverno.

Viva Rainha

Há uns dez anos não rezava a Salve Rainha. Quando precisei, havia esquecido. Só lembrava que era a mais difícil de todas e que me deu muito trabalho quando criança… Parece, inclusive, que fui reprovado no teste da Salve Rainha, na escola… Talvez por isso só tenha me batizado aos 18, quando já estava treinado nos decorebas da vida…

Salve Rainha é como José de Alencar: é belo, mas a criança não entende. Nem o adolescente. O jovem até entende, mas não gosta. José de Alencar é coisa para adultos (e nem todos), assim como a Salve Rainha. Apresentar José de Alencar aos moleques do ensino fundamental me parece tão irracional e desestimulante como ensinar Salve Rainha aos pimpolhos da 1ª comunhão…

Minha querida sobrinha de 13 anos, invejável devoradora de livros, se prejudicou na escola, porque não suportou Iracema e tirou nota baixa. Por Deus ela não leu. Por Deus ela não se desencantou com a literatura. José de Alencar não escreveu para ela, mas para homens, intelectuais e presunçosos, barbados e recalcados, do século XIX.

Quanto à Salve Rainha, por Deus que Maria é do povo. Por Deus que é a pobre refugiada de Nazaré, a negra de Aparecida, a índia de Guadalupe, a senhora dos roceiros de Fátima… Por Deus não nos desencantamos com a religião. Porque se dependêssemos da Salve Rainha, a devoção ficaria a cargo dos homens, intelectuais, recalcados e paramentados doutores da lei do Vaticano…

Depois de uma breve análise sintática e semântica da Salve Rainha, adaptei a Viva Rainha, mais ou menos assim:

Viva Rainha, Mãe doce, misericordiosa, cheia de vida e nossa esperança. Viva!
Somos os filhos de Eva, rejeitados, e imploramos à Senhora.
Pedimos, gemendo e chorando em lágrimas.
Então vamos, nossa advogada!
Olha pra a gente, com esses olhos misericordiosos
E, depois dessa separação, mostra Jesus, o bendito fruto do teu ventre!
Ó clemente, piedosa, doce e sempre virgem, Maria!
Reza por nós, santa mãe de Deus,
Pra que a gente receba a salvação que Cristo prometeu.
Amém.

Juiz das cavernas...

Como vascaíno prudente, evitei escrever a esse respeito, quando tomado pela frustração, raiva e indignação da final do último campeonato carioca, porque certamente o meu discurso não teria qualquer credibilidade. Seria mais uma apelação de perdedor, no meio de tantas outras... No entanto, penso que o contexto da Copa do Mundo seja o cenário ideal para expor a reflexão recalcada de alguns meses, especialmente por causa dos vários e importantes erros de arbitragem, testemunhados ainda nos primeiros jogos, beneficiando injustamente, ao que parece e inclusive, a minha querida Seleção Brasileira...

Não credito os equívocos dos juízes de futebol a fraudes, corrupção ou propina, muito embora saiba que isto ocorra... Baseio minha crítica na regra, não na exceção. O fato é que não podemos esperar grande coisa de alguém que tem a implacável missão de acompanhar, simultaneamente, o que ocorre dentro e fora do gramado, tendo que decidir de imediato, sem tempo para pensar e nem direito a replay, dispondo apenas de alguns amigos - e portanto também falíveis - auxiliares... Tudo parece compreensível se não fosse a tecnologia.

Por que os computadores entraram em todos os lugares do mundo, menos nos campos de futebol? Por que os recursos de imagem auxiliam todo mundo, menos os árbitros? Não há resposta ética para essas indagações... Não há justos argumentos que convençam o cidadão minimamente crítico dessa indecorosa resistência...

Há pelo menos 20 anos acompanhamos cenas patéticas: todo mundo assistindo ao ocorrido - com a precisão de uma calculadora, por vários ângulos e em tempo real - enquanto o único desinformado decide ao contrário de fatos instantaneamente esclarecidos, porque justamente àquele que mais precisa enxergar, não lhe é permitido ver... E o juiz fica por ali, solitariamente desconfiado, apitando ao natural, com cara de palhaço, com fama de ladrão, como se estivéssemos ainda no tempo da pedra lascada...

Não precisamos buscar soluções, pois elas já existem à pleno vapor. Basta aplicá-las e render-se à justiça e à verdade, como fazem o tênis, o vôlei e o futebol americano. No caso do futebol, cada treinador teria direito a, por exemplo, dois "desafios" em cada etapa da partida, para permitir que a tecnologia esclarecesse lances importantes e duvidosos. Isto não demoraria mais que o tempo de uma substituição, cobrança de escanteio ou tiro de meta. Não mais.

Por outro lado...

O futebol, você sabe
É razão e emoção
Um juiz desinformado
Só arranja confusão
E ainda leva, de quebra
Aquilo que mais detesta:
Sua fama de ladrão

E tem mais, camarada
Não fica só nisso, não
Um erro na "hora errada"
E sem direito a perdão
No jogo, na decisão
Causa uma mágoa danada
De partir o coração

E o torcedor apaixonado
Inconformado e descrente
Fica doente, recalcado
Martelando em sua mente
Que tudo seria diferente
Se o computador revelasse
O que ocorreu realmente

Mas a FIFA é indigesta
Insiste na contra mão
Só liga pra lucro e festa
E não sei por qual razão
Se por roubo ou tradição
Não se importa em retirar
O que da regra não presta

O jeito é apelar pra sorte
E pra São Sebastião
Que o juiz veja direito
Que não haja indecisão
Não há muito o que fazer
A nós, só resta torcer
Pro Brasil ser campeão!

Ninguém me cutuca

Gostaria que a gente pensasse mais em como vivemos. Na razão de ser de cada atitude mais elementar do dia a dia. Trata-se de uma espécie de "auto-análise", que faz muito bem e nos ajuda a enfrentar as contradições da vida em sociedade. Não farei comparações com o passado, porque não o experimentei. Deixo esta tarefa para os mais experientes...

Penso que nunca fomos tão exibicionistas como hoje, com essas redes sociais. Este blog reforça a argumentação, já que, se não quisesse "aparecer" com minhas idéias, escreveria em um diário pessoal, trancado a cadeado... Mas algumas coisas perdem o sentido e a autenticidade, especialmente quando se trata das "curtidas" e "comentários" no Instagram, Facebook e etc.

Tenho visto pessoas pedindo a outras para os curtirem nas redes sociais, a fim de que suas publicações façam o máximo de "sucesso" possível... Já vi gente dizendo: "curte, mesmo que não goste, para me ajudar"... Ou melancólico, porque sua foto (dentro do banheiro, no carro ou na academia) não foi "bem curtida"... As pessoas utilizam as redes sociais para pedirem admiração, reconhecimento e atenção nas próprias redes sociais! E não se pensa em outra coisa: todos querem ser artista de televisão, como se isto fosse a melhor referência para a nossa vida...

Não sei se preciso dizer que o virtual jamais conseguirá substituir, à altura, o real. A gente quer fazer sucesso publicamente, porque não o consegue privadamente, com quem está ao nosso lado, nos vendo de verdade... A gente quer "curtidas" - mesmo que falsas - porque talvez não receba um abraço caloroso, uma amizade confiável, um "eu te amo" inocente, um sexo menos performático...

Parece que a gente desistiu de "querer ser". Parece que a gente decidiu "parecer ser"... Tá todo mundo sempre sorrindo, sempre feliz, sempre alto astral, sempre bacana, sempre bonito e arrumado. Só que isso é deprimente, depressivo... Parece que perdemos o rumo de vez... Parece que desistimos de amar... Parece que desacreditamos de nós mesmos e desaprendemos a curtir as coisas boas da vida...

Aprecie com moderação!

IMPRÓPRIO PARA MENORES DE 18 ANOS.

"MAMA
(Valesca Popozuda e Mr. Catra)

Muita polêmica! Muita confusão! Decidi parar de cantar palavrão,
Então por isso, negão, vou cantar essa canção

Quando eu te vi de patrão, de cordão, de R1 e camisa azul
Logo encharcou minha xota e ali percebi que piscou o meu cu
Eu sei que você já é casado, mas me diz o que fazer
Porque quando a piroca tem dona é que vem a vontade de fuder

Então mama, pega no meu grelo e mama
Me chama de piranha na cama
Minha xota quer gozar, quero dar, quero te dar

Quando eu te vi no portão, de trancinha, tamanco e vestido azul
Logo latejou o meu pau e ali logo vi que piscou o seu cu
Puxei sua calcinha de lado e dei três cuspidas pro meu pau entrar
Então eu fiquei assustado, porque você só queria mamar

Então mama, pega minha vara e mama
Vem deitar na minha cama".

...

Perdoe-me! Não conseguiria apresentar o tema em discussão, sem mostrar a letra na sua íntegra, já que a intensidade, neste caso, é relevante. Mas não se apavore. Esta é apenas uma única canção, de uma única banda, de um único gênero musical, dentre incontáveis outros semelhantes que bombam entre nós... Seja nacional ou internacional, do nordeste ou do sudeste, na periferia ou nas baladas mais elitizadas.

De alguns anos pra cá, tenho tentado fugir aos moralismos e à hipocrisia. Gosto de sexo e quem me conhece sabe que também consumo conteúdos musicais (e não musicais) desta natureza. Mas é que "a diferença do remédio para o veneno está na dose"...

Não me atemoriza a existência desta música, deste CD, deste grupo musical, ou qualquer outro. O que me preocupa é a proporção que esta cultura representa no consciente coletivo de toda uma geração - especialmente de crianças e adolescentes - que estão se formando... Em muitas e muitas localidades espalhadas por todo o país, milhares e milhares de pessoas nascem, crescem, reproduzem (bastante) e morrem, sob a incansável overdose destes ensinamentos, condicionando, forte e inevitavelmente, a sua visão de mundo, de gente, de valores; suas escolhas, seu comportamento...

Defendo a liberdade - sexual e de expressão -, porque são manifestações naturais do ser humano e imprescindíveis à sua felicidade. Mas até a liberdade - principalmente ela - precisa ser desfrutada com racionalidade, responsabilidade e ética. A liberdade também pode contraditoriamente oprimir, aprisionar e escravizar, dependendo do uso que dela se faça. Uma caneta pode servir ao poeta, como ao assassino... É uma questão de adequação.

Não é a censura, a lei ou o decreto; nem a hostilidade, a discriminação ou a violência que mudarão essas coisas... Absolutamente. A vida é muito mais e muito maior que tudo isso. Só que apenas alguns tem acesso ao melhor que ela nos oferece. Somente a alguns é permitido apreciar e desfrutar da imensurável beleza que existe fora da caverna.

Quando assisti na TV a funkeira fazer sua performance, no programa de Ana Maria Braga, pensei que Rubem Alves, Adélia Prado, Leonardo Boff ou Frederico Mattos também poderiam tomar café com ela... Por que não?

Tô com medo.

Tô com medo. Do futuro. Do Brasil. Tenho feito algumas reflexões, que me levou a perspectivas preocupantes. Talvez não faça sentido, mas tenho compartilhado algumas loucuras neste espaço, e sem ressentimentos. Uma "nova" manifestação ideológica está sendo gestada no país e poderá eclodir em dez ou vinte anos. Vou explicar.

A redemocratização do Brasil e todo o processo político de combate à ditadura nos anos 80, a efervescência do movimento sindical, a criação do PT, lançaram sementes para o nascimento de uma nova geração de inclinação socialista, que haveria de se formar na década seguinte. Nos anos 90, as coisas continuaram e se desenvolveram progressivamente: o crescimento do PT, a visibilidade dos Direitos Humanos, a encantadora Teologia da Libertação, a intelectual colaboração acadêmica, o desgaste do governo FHC, consolidaram os novos socialistas de um novo tempo, cheios de esperança com a eleição de Lula.

Mas doze anos conseguem desgastar qualquer governo. O evento histórico do mensalão, o aumento da insegurança, a contestação aos Direitos Humanos, as assombrosas manifestações sem precedentes, deixaram uma parcela da juventude carente de uma oposição que praticamente não existia. E um importantíssimo ingrediente apimentou a relação: o orgulho gay mexeu com quem estava quieto, trazendo para a disputa a numerosa e coesa comunidade evangélica, conquistando, pouco a pouco, também, os católicos. Isto fará toda a diferença...

Vamos combinar que a juventude no Brasil é, em geral, despolitizada e desinteressada. O pouco que se encontrava, formavam aos grupos de esquerda, taxados de radicais e alienados. Mas a coisa está mudando, amigo. Se faltava conteúdo à oposição, o professor Olavo de Carvalho oferece. Ministrando seu curso de filosofia online a milhares de jovens em todo o país, com duração de cinco anos, ele tem arrebatado incontáveis discípulos fiéis, encantados com a sua eloquência e convicção, para a formação de uma militância declaradamente de direita (e quanto mais direita, melhor). Pastor Silas Malafaia, Padre Paulo Ricardo, Rachel Sheherazade, Lobão e tantos outros lubrificam a engrenagem dessa engenhosa roda gigante ideológica, sempre catalizada, é claro, pelas redes sociais.

Quanto aos novos esclarecimentos liberais, apoio. Nada deve ser tão verdadeiro e certo, que não mereça contraditório. Só que, se por um lado, "quando um não quer, dois não brigam", por outro, quando os dois querem, não há quem empate... Aliás, empate é justamente o que eles não querem, pois só a vitória os interessa. No seu tempo, com a mais consciente boa-fé, lutarão enfurecidamente, cada um pela sua vitória. A qualquer custo e até as últimas consequências...

Olhando para o futuro, sigo meio amedrontado. Adotando esse perfil moderado, xôxo, que não agrada a ninguém.

Em transição...

Os idosos lembram nostalgicamente das coisas como eram no seu tempo. O que se fazia, o que não se fazia, o que existia e o que não existia... Muita coisa caiu em desuso e muitas outras coisas ergueram-se em uso (para cair depois, mas só depois). Talvez por causa da velocidade tecnológica - que atropela a cronológica -, a minha geração dos trinta (um pouco mais ou um pouco menos) já começa a olhar para trás, sentindo-se ultrapassada...

Vivemos no antes e no depois desta muito bem definida "revolução da informação ou da comunicação". Experimentamos, no auge da nossa mocidade, o miolo destas tão significativas transformações, que marcarão para sempre a história e afetaram sensivelmente o dia-a-dia dos grupos humanos de todas as classes sociais - o cidadão da periferia frequenta a lan house e também adquiriu o seu smartphone. Mudaram-se os padrões, mudou-se o paradigma.

Não há referências nem modelos. Não somos os mesmos nem vivemos como os nossos pais (em certo sentido, é claro)... Inauguramos um novo jeito de fazer, de viver e de pensar, compulsoriamente afetados pelo turbilhão de informações eletrônicas e tecnologia galopante. Recebemos as novas influências, mas ainda fincamos a memória no passado da nossa velha infância. Somos ao mesmo tempo uma coisa e outra, correndo o risco de não ser nem uma coisa e nem outra... Ainda brincávamos nas ruas, ainda conversávamos com os vizinhos, ainda escrevíamos cartas...

Porém, deixo para o final aquilo que talvez me pareça mais perturbador. Vimos cair o muro de Berlim. Isto significa que ainda o vimos de pé. Ainda herdamos esta concepção dual das coisas, do capitalismo x socialismo, céu x inferno, nacional x internacional, homem x mulher, igual x diferente... Nossa mente ainda se vê agarrada nessas coisas, cujo conceito não traduz os novos paradigmas. Somos incapazes de pensar livremente para além de tudo isso...

Esta geração cumpriu com mérito o seu papel. Fez a transição e nada mais. As soluções, as saídas, os caminhos; estes ficarão para os nossos filhos...

Para não dizer que não falei com flores...

Recebemos uma plantinha, que fora distribuída a algumas pessoas da família. Era pequena, num vaso ainda menor, para decoração de mesa, talvez. Minha esposa comprometeu-se a regá-la, só que ao fazê-lo, conversava com o vegetal, oferecendo-lhe palavras carinhosas...

Muito esquisito. Fui ensinado a falar somente para quem tem ouvidos. Mentira!, porque nem com os animais estabeleci este tipo de interação. Me restringi a gente mesmo, e nem todas... "Dizem que ajuda", justificava ela, convidando-me para aquela cena bizarra... Balbuciei uma ou no máximo duas palavras quaisquer, por insistência, e me retraí, porque aquilo era ridículo.

A plantinha nos chegou murcha, meio morta (se é que isso existe). Mas começou a revigorar. A reagir e botar flores, que sinceramente não cabiam para tão poucos galhos... Alegrou a mesa, a sala, a casa. Alegrou as paredes e as pessoas... Alegrou o espírito. Creditou-se o sucesso ao diálogo, já que os outros regaram, mas só a nossa vingara àquela altura.

Pensei como a gente é seletivo e comedido para o afeto... A gente dá amor, como quem dá dinheiro: fazendo cálculos. Como se isso fosse diminuir a economia da nossa alma, para favorecer a de terceiros (como uma transferência bancária entre corações da mesma espécie)... A gente ama como investimento: para receber depois, uma herança, uma pensão, nem que seja uma caixa de remédio das mãos dos filhos crescidos...

Parece que amar não segue a lógica da matemática - ou talvez lógica nenhuma. Porque dar, neste caso, não revela subtração, mas multiplicação, como a das flores, como a do pão... É ver para crer!

As preocupações do dia-a-dia nos fizeram esquecer da plantinha, que murchou de novo - murchou que faz pena. Só que, desta vez, sou eu quem vai cuidar dela. Vou conversar, mas em segredo, porque preciso conservar a minha reputação racionalista.

Bigode Grosso

A cultura popular é uma coisa maravilhosa. Um fenômeno espontâneo, que brota não sei de onde, não sei de quem, emergindo valores e costumes de uma comunidade, e que, por causa desta identificação genuína, se irradia rapidamente. De certo modo, é uma manifestação que representa o povo ou parcela dele. Mas alguns amigos têm me ajudado a analisar as coisas com uma cabeça mais independente dos credos e das ideologias. Assim, nem tudo o que é popular deva ser necessariamente bom... Tenho evitado generalizações.

Gosto da liberdade e até mesmo da extravagância. Sinto-me intimamente seduzido por padrões que fogem ao que convencionamos por "politicamente correto" (se é que isso existe). Refiro-me a um modo de vida mais verdadeiro e menos neurótico, que não teme revelar aquela outra parte que a gente esconde, o nosso lado meio vagabundo. Por isso, consumo Gilberto Gil e Psirico, sem grandes conflitos. Tenho medo dos falsos moralismos, mais ainda dos moralistas.

O funk (não somente ele) descreve sem arrodeios os valores mais caros da nossa sociedade: o dinheiro, o sexo e o poder. Ideais perseguidos não apenas pela periferia, mas principalmente pelos mais abastardos, e também por eu e você. Ratifico Silvio Santos: quem não quer dinheiro? E digo mais: quem não gosta de sexo? Quem não quer ser autoridade ou referência naquilo que faz? (isto lhe confere poder). Neste sentido, o funk é fiel.

Mas minha crítica extrapola o funk e minha preocupação se dirige a esta filosofia reinante. A esta pirâmide invertida, que coloca o importante como "o mais importante" (isso faz toda a diferença), e que trata o essencial como suplemento... Quer ser careta? Fale de amor. Amor comprometido e responsável, que sofre e sofre com orgulho. Fale também em desfrutar da companhia das pessoas - de graça -, mais do que dos lugares e das rotas turísticas... Fale em ser uma pessoa boa, mais do que importante...

Lamento a receita da felicidade, cujos ingredientes são carros de luxo, piscina com mulheres para orgia, dinheiro caindo como folhas das árvores, ouro e drogas para potencializar a performance... Não imagino o que esperar de uma nação que cresce e se desenvolve nutrida por valores como estes... O pobre quer ser simplesmente rico, sem qualquer melhora, sem qualquer aprendizado, sem qualquer legalidade. O rico... Também.

Eu até que respeito o moço. Mas discordo de quase tudo o que ele diz...

O tratamento dos pronomes

Me disseram ser de Nietzsche a frase "a verdade é insuportável ao homem". Autoria à parte, só posso concordar com a ideia. E atesto no dia a dia. A mentira é requisito necessário da boa convivência e escada para o sucesso, seja familiar, profissional, entre amigos ou qualquer outro. Sou convicto de que o processo civilizatório é assentado sobre essa etiqueta.

Imagine uma mãe. A sua mãe (ou você mesmo). Chegando do trabalho, exausta, irritada porque exausta, TPM, irritada porque TPM, dores pelo corpo, irritada porque dores pelo corpo, suportando viver... O filho pequeno se trepa nela, em êxtase, ocasionando-lhe uma odiosa sobrecarga, pisa no seu pé e fica puxando a camisa nova insistentemente, queixando-se de qualquer coisa... Ela deseja naquele momento não ter filho; que ele não existisse por pelo menos 2 horas de descanso... Mas a melhor mãe do mundo o abraça com carinho. E o filho terá um desenvolvimento saudável.

Uma amiga desabafa sobre o ex-namorado com todo o entusiasmo, em plena madrugada, já faz duas horas. Ela chora. Você não aguenta mais aquelas repetições. Você não aguenta mais aquelas repetições! A confidente permanece interagindo, demonstrando interesse. E serão amigas para sempre.

O seu patrão fede às vezes e trabalha ao seu lado. Ele tem mau hálito e não sabe contar piadas. Você está sempre bem humorada. Você ri e levanta a bola dele. Você conquistou promoção por merecimento.

Acho que os pronomes de tratamento fazem um excelente trabalho, tão necessário à ordem quanto o Código Penal. A impessoalidade facilita as boas relações e constrói uma harmonia necessária, mas nem sempre (ou quase nunca) genuína.

Será que a Vossa Excelência é uma pessoa excelente mesmo? O Excelentíssimo Governador é um exemplo de cidadão mais do que excelente, como se sugere? Ou isto só seria compreendido como uma profunda ironia?

Aquele reitor é tão magnífico quanto se ouve? O Meritíssimo Juiz se faz digno de tanto mérito? O Reverendíssimo abade merece tanta reverência assim? O Papa é de fato uma Santidade em pessoa? Dois anos de estudo e pesquisa em pós-graduação é capaz de formar um Mestre da ciência? Na verdade, rara são as vezes em que utilizamos um pronome de tratamento de peito aberto, com o coração ardendo dentro, cheio de orgulho... Venerar a babá, nem pensar!

Quando o cliente fala "doutor" (porque sou advogado), sempre me desconcentro por um segundo. Penso que não é comigo. É tão estranho quanto a gravata... Ainda prefiro o "Léo-léozo" de antigamente...

A religião: a minha e a sua.

Depois de pensar durante anos e ter experimentado algumas realidades no passado, tenho atualmente admitido que religião não pode ser tratada como política partidária, time de futebol ou concorrência de mercado. Quero dizer que rivalidade não combina com espiritualidade... Este não deveria ser um espaço para paixões e fobias, mas para experiências serenas e elevadas, acima das picuinhas típicas da nossa realidade sensível. Religião não era para ser defendida, porque não deveria ser atacada.

Tenho dito que o problema da religião é a verdade. Por outro lado, sem verdade não há religião... Será que a verdade de tudo o que há - além do perceptível e do imaginado - consegue ser decodificada com toda a amplitude e mistério em forma de linguagem, escrita, sistematizada e racional? Muitas perdas nessa manufatura, muitos mistérios permanecerão mistério... Quando se estabelece uma verdade, ao mesmo tempo elegemos infinitas mentiras, ou seja, todo o resto! A partir daí, essa confusão e disputas, que torna a religião tão medíocre quanto repugnante...

Não quero relativizar tudo e acreditar em nada. A verdade sempre estará aí, nos convencendo das coisas. Acho que a verdade deveria ser mais sagrada do que a própria religião, e o mistério de uma poderia conter a arrogância da outra... Mas não há humildade na religião. Esta, por função, assume o pretensioso papel de dar respostas certas a enigmas ainda mais certos. E o religioso, por sua vez, acaba por revestir-se desse mesmo espírito...

Meu pai me disse que religião serve para tornar o homem melhor. De lá pra cá, tenho acreditado nisso (é uma questão de fé). Portanto, se a sua religiosidade lhe faz bem, se te ajuda a ser uma pessoa melhor - para si e para o mundo - você encontrou a religião certa, pode acreditar! Viver é uma oportunidade, e das melhores. Faça o melhor da vida, o melhor possível...

Axé! (pra quem é de axé).
Amém! (pra quem é de amém).

Mulher-testosterona

Seria incapaz de fazer sexo com uma mulher mais forte do que eu. Me sentiria numa situação desconfortável e a brochada é certa... Mesmo sendo meio fracote, gosto de perceber a minha força, por mais que não a utilize de fato. O envolvimento com uma mulher dessas me sugere subliminarmente uma inversão de papéis, que não casa com qualquer das minhas fantasias mais esdrúxulas...

A vida exige sempre mais da gente, não é mesmo? Delas, mais ainda. Não basta ter pernas trabalhadas, barriga saudável e peitos médios e bonitos... Tudo isso já reclama da sujeita muito tempo, muita energia e até sofrimento (tem gente que chora levantando uma maromba). O padrão de medidas cresceu tanto, que se tornou biologicamente impossível para a fêmea. Ao invés de criar consciência e recuar, encontraram uma brilhante saída, socorrendo-se do hormônio dos homens - testosterona na veia! -, aproximando-as muito mais do He-Man do que da She-Ra...

Os riscos para a saúde não me parece o melhor argumento para conter esta esquizofrenia narcisista coletiva. O valor maior é o estético, e o diálogo deve ocorrer também neste terreno. "Acho feio" convence muito mais do que "irritação", "agressividade", "colesterol", "trombose", "câncer", "morte"... Uma loucura!

Não quero me travestir de Arnaldo Jabor, mas prefiro a mulher-estrógeno, com toda a docilidade que em mim carece, com a aparente fragilidade que me conquista... Na minha conversa mais íntima, a fala grossa sou eu!

A menina da escada rolante...

Ia ao banco, no Shopping, e peguei a escada rolante... Estava vazia, só eu descendo. Mas uma menina queria subir, lá em baixo, na contra-mão. Percebi, na verdade, que era apenas uma brincadeira de adolescente. Ficava caminhando sem progredir, como numa esteira... Sorria.

Era uma menina alegre e bonita. Tão nova e tão produzida: cabelo curto, envaidecidamente montado, e remontado com as pontas dos dedos a cada sete segundos; pó, maquiagem nos olhos e batom forte; a camisa eu não lembro, mas o short era jeans, resguardando somente o essencial e desfiado nas pontas; pernas brancas e vistosas...

Antecipando a passagem, ela abre caminho à distância, enquanto eu me aproximava...

Era um homem. Era. Um garoto. Não sei o que pensar...

Somos todos juízes, todos os dias, a cada nova situação que se nos apresenta. Qual será a justa sentença?

Tenho todo o direito de sentir qualquer coisa entre os extremos, por qualquer criatura... Isto é até incontrolável, cujas motivações são as mais obscuras... Relaxe.

O meu parâmetro (racional e não emocional) é a felicidade. Este patrimônio acima das leis, da cultura, dos modelos, cujo limite é a infelicidade alheia, o mal ao próximo...

Porque condenar uma jovem como essa à clausura de seu próprio quarto, diante de seu próprio espelho, se o mundo está aí fora, maravilhoso e espaçoso, para a gente ser e viver ao nosso estilo? Essa perturbação não afeta somente a ela... Esse temor não amedronta unicamente a ela... Essa coragem também nos desafia.

"É apenas uma ideia que existe na cabeça, e não tem a menor pretensão de convencer" (Lulu Santos).

Passei caladinho, disfarçando uma naturalidade inexistente, com um certo orgulho no meio do peito...

A fome...


Todos nós temos aquele episódio dramático que mais nos sensibiliza. Pode ser o câncer, crianças com câncer, aidéticos, hansenianos (leprosos), viciados da cracolândia, moradores de rua, sem terra, órfãos, velhinhos do asilo, e essa lista não acaba, porque o que mais se tem no meio do mundo é desgraça para a gente se importar... Pois bem, nesta relação interminável, o que mais me aflige é a fome. Falo da fome absoluta, da extrema pobreza, da miséria completa, e compreendo direitinho o despertar do meu interesse: as campanhas publicitárias da década de 80 em torno da África, que culminaram na clássica produção "We Are de World", liderada por Michel Jackson, com sua trupe de popstars...

Celebridades à parte, e sem estabelecer qualquer hierarquia no rol das mazelas e enfermidades, penso anestesiado como a espécie humana, tão evoluída e tão sofisticada, convive sem maiores problemas com espaços tão díspares, distribuídos no planeta, quando lembramos por exemplo do Haiti e Dubai. E é incrível como esta realidade (em alguma medida) se repete dentro de um mesmo país, em regiões distintas, cidades vizinhas, num mesmo bairro, na mesma avenida...

Dividimos isso todos os dias, com a naturalidade de quem vai para o trabalho...

Não acho que o Estado tenha obrigação de patrocinar a felicidade das pessoas, que devem ser donas de si. Mas nascer no meio da fome, da miséria, do completo abandono, sentenciado à morte e ao sofrimento, sem que se tenha cometido qualquer delito, não me parece nada aceitável... As nações são ilhas, quando se trata de solidariedade; as fronteiras são abismos, quando se trata de pobreza; porque, quando o assunto é riqueza, a lógica é exatamente oposta, até as últimas consequências...

Existe um limite a partir do qual a tolerância deixa de ser fashion, a retórica não convence e a filosofia não encanta... No meio da miséria, só o socorro interessa. O resto aborrece.

A medir pela propaganda, acho que a África superou seus problemas de inanição... Graças a Deus!

A macumbeira

Há muito tempo, ainda criança, frequentava assiduamente uma casa da família, cuja empregada trabalhava por lá fazia um século... Trabalha até hoje, inclusive. Ela era uma autêntica representante da negritude, cuja africanidade estava (e está) estampada em todos os seus traços, sem escapar nenhum. Na síntese da minha querida avó quilombola, era uma "negra legítima". Penso que a sua ascendência não deva ter participado muito da miscigenação que caracterizou a nossa história. Era gorda e usava um lenço na cabeça...

A recomendação sussurrada dos cuidadores era essa: "não chegue muito perto dela, porque ela é macumbeira"! Dizia-se isso com uma encenação que misturava preocupação, cuidado, temor, estranhamento, desconfiança, nojo..., perpassada por gestos e palavras. E tudo isso me fora transmitido por herança. Aquela senhora se desconfigurou completamente para mim. Perdera a sua humanidade. Tudo nela associava ao capeta. Tornou-se uma monstra, a bruxa do 71!

Procurava sinais do satanás e encontrava naturalmente: quando sorria e ria, quando falava e gritava, quando andava, trabalhava e especialmente quando cozinhava. Era gorda porque era mãe-de-santo, cobria a cabeça porque era mãe-de-santo. Imaginava ela permanentemente endemoniada, cuja vida e liberdade fora negociada ao diabo para sempre... Dialogava apenas o inevitável e a observava com a desconfiança de quem descobrira a identidade secreta de uma espiã infiltrada da KGB...

Dá pra imaginar que a construção desse personagem dificultou também a aproximação com o seu filho, prejudicando o entrosamento das brincadeiras. Talvez tenha sido maldoso com ele (eu era mais velho). Certamente fui...

Afastando-me mais do catolicismo (embora ainda conserve a formação cristã), passei a ver o candomblé como uma religião, nada mais, nada menos. Tratei de reconhecer a imensa e positiva contribuição do negro na formação do nosso povo e construção da nação. Se o trabalho dignifica o homem, há muito mais dignidade na senzala do que na casa grande, e é daquela que vem a nossa linhagem de nobreza... A fatia da cultura africana (incluindo nisso a religião) é hoje uma das coisas que mais me orgulha enquanto brasileiro. Acredite: somos muito mais africanos do que europeus, e isso não é difícil de verificar...

Passaram-se os anos, as décadas. Sem nunca imaginar, encontro "a macumbeira", hoje, querida senhora, no comércio. Havia esquecido dela. Volto alguns passos e me certifico. A vida me dava uma oportunidade de reconciliação... Destilei todo o meu amor em quinze minutos de íntima conversa e três ou quatro abraços calorosos de saudade... Atualizamos a nossa história de escolhas, alegrias, sofrimentos e perseverança. Nos despedimos sorrindo, amigos e amantes. Eu, com a alma redimida do pecado, com o espírito puro, vislumbrando adiante, a gloriosa salvação...

Aliás, acho que vou ter que usar um lenço na cabeça... Estão caindo cabelos no meu almoço... É uma questão de etiqueta.

Paraíba masculina

Nesse mundo tem gente pra tudo, e ainda sobra um pra tocar gaita, conta o poeta Jessier Quirino. Pois bem, tem gente homem e gente macho, machô-chô. Nas fofocas de repartição pública (as quais sempre prestigio atentamente), ouvi histórias desse tipo de gente, que sintetizarei pra você. Não me conte nada em segredo, porque perderemos nossa amizade.

O macho do relato é democrático. Ele trabalha, porque "o trabalho dignifica o homem". Mas como nesta filosofia não se fala em mulher, ela não pode trabalhar. Ele é comerciante, usa a comunicação e lida diretamente com pessoas, principalmente mulheres, a quem dá especial atenção. A final, é uma questão de democracia, qualquer intelectual sabe disso. Se você discorda, é burro.

O macho é precavido. Preocupa-se com o corpo e faz academia regularmente. Mas ela não pode, porque já tem saúde, não há o que melhorar, está boa demais. E aquilo não é ambiente para ela. Tem muito homem mal intencionado, que pode desgraçar a nossa vida...

O macho é conectado. Ele tem Facebook, ela não. É perigoso. Muita gente ruim vai bisbilhotar a nossa intimidade, pondo em risco a integridade familiar... Gente mal amada. Ele só usa a rede profissionalmente, não devemos temer.

O macho sabe das coisas. Nos bares e restaurantes, somente ele pode ir ao banheiro, porque o homem urina mais, já que bebe cerveja. Um copo de suco ou água de coco não é motivo para tanto... Retocar a maquiagem se faz na cadeira mesmo, para isso existem os espelhinhos dentro da bolsa. Não inventa!

O macho se preocupa com o orçamento familiar. Vendeu os dois carros populares que possuíam (utilizados por ambos), para comprar um único de luxo (só para ele). É para economizar na gasolina. Pesa também a consciência ambiental, muito forte...

O macho é cuidadoso. Esta mesma dedicação dispensada à esposa, estendeu agora à amante. A outra trabalha no comércio e isso está o deixando pra não viver... Confidenciou aos amigos que é muito ciumento e que, se a esposa o trair, ele a mata.

Você deve está pensando em doença. É verdade: essa mulher tem problemas. E ele... é criminoso. Também...

Essa terra masculina tá precisando mesmo é de mulé-macho...

Coisa do destino...


Saí às pressas para um evento de Advocacia Popular na universidade, mas quando chego, dou de cara com um arco-íris decorando uma roda de diálogos. Perguntei discretamente a um colega e descobri que estava no lugar errado... Mesmo assim fiquei, porque tenho afinidade com as demandas LGBT. Muita coisa aconteceu... Você não faz ideia.

Entro na hora da apresentação dos participantes e, naturalmente, chegou a minha vez. Conto o desencontro - colhendo alguns risos - e me contam que o evento havia acabado há umas duas horas - colhendo outros risos. Estava ali por engano, mas me acolheram naturalmente. Passo a palavra, quando me interpelam, porque havia esquecido do principal: "sou hétero".

Mas não me senti diferente por isso. No fim das contas somos gente! Na essência, somos essa coisa que sabemos muito bem... O resto é decoração, é a cereja do bolo... É fantasia, é imagem, nada mais. Não é possível que a orientação sexual possa nos estranhar tanto, nos distanciar, nos separar, nos dividir, nos rivalizar, nos guerrear, nos matar... Mas é, meu camarada... É muito possível... É real.

Assino a lista de presença, para valorizar o quórum, e fico ali, ouvindo coisas bonitas... Histórias da vida real... Uma riqueza. Fui percebendo que estava mesmo no lugar certo e não havia me enganado coisa nenhuma. A humanidade naquele lugar era latente! E quando me sinto gente - gente como a gente - me sinto vivo, me sinto bem...

Pra terminar, sorteiam o número 24 da lista de assinaturas e presenteiam Leonardo Dantas com uma bela camisa: "tire o seu respeito do armário"!

Coisa do destino...

A arte e o artista

Desculpe a arrogância, mas acho que hoje descobri o que é um artista. Digo artista! Não necessariamente aquele ator da televisão, aquele cantor de sucesso, aquela celebridade. Artista não se mede assim, de fora pra dentro, pelo repercussão da sua obra, pela exposição.

Artista é um sentimento, uma percepção, uma relação visceral com a arte. Artista encontra na arte o socorro da sua vida, a última escapatória possível. Artista é insano e a arte é seu remédio. O artista se confunde com sua arte, numa simbiose patológica, mas, ao mesmo tempo, vital.

E não precisa fazer bem feito, muito menos ser reconhecido. Nada disso. O artista está nas ruas, nas calçadas, nas periferias, enclausurado no quarto, preso na cadeia; somente às vezes nas galerias, de vez em quando nos festivais, eventualmente nos museus, raramente nos palcos luxuosos...

O artista se perde... Mas se acha a si mesmo...

A vida é mais do que o trabalho, mais do que a feira, as contas, o shopping... A vida é mais do que o salário, o carro, o móvel e o imóvel. A vida transcende. A vida não é só pão, é circo também... É magia, é fantasia, é sentimento, é emoções... A vida é alma. E a arte é tudo isso.

Sem ela, o homem é um ser biológico, que nasce, cresce, reproduz e morre. Que tem fome e sede, inteligência e instintos. Pouco mais do que isso. Mas, com ela, a vida não tem tamanho, não se mede, não se explica... A arte resgata a essência desaparecida, que engrandece a existência a faz a vida valer a pena...

O artista se transporta para o imaginário, o etéreo, e com ele se desfaz. Onde não há régua nem regras, nem formas, nem estilo, nem críticas, nem nada. E ali se descobre, e ali se completa.

Baby Brasil


Lembro de estudar história e tudo me parecer das cavernas. Tempos remotos, que até o historiador seria capaz de esquecer... Para mim era como um conto de fadas, outro mundo, outra história, bem diferente da minha. Eram datas e fatos que tínhamos de decorar e responder na prova, pouco mais do que isso... Deodoro da Fonseca, por exemplo, era praticamente um ancestral, de uma era geológica qualquer... A barba e o bigode só confirmavam minha tese.

Tudo mudou para mim quando inventei de fazer as contas - de mais e de menos. Vovô Belo (pai de mainha) nasceu há apenas 12 anos do império de D. Pedro II! Nasceu também a apenas 13 anos do tempo da escravidão! Aliás, o período da escravidão compreende escandalosos mais de 75% da história do Brasil (contados desde o seu "descobrimento")! Isso, para mim, desafia as leis da natureza e da matemática principalmente. Desafia a própria história. O sentimento é de completa desorientação...

Vamos combinar que vovô não pode ser história. Vovô é vovô. Vovô é presente! Em estado de surto psicótico, fui obrigado a concluir que o Brasil não tem história. Só presente! Me enganaram a vida inteira... A história de que falamos é coisa de nossos avós e bisavós! O funcionário público que vi na TV ontem (com 99 anos de idade) abocanha, sozinho, praticamente 20% da história do Brasil! Isso não é história, porque história é passado. Acho que querem me enlouquecer...

Sigo anestesiado, com o convicto sentimento de que o Brasil é um bebê. Que ainda está aprendendo a andar com as próprias pernas, ler e escrever e, é claro, votar também.