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Pedagogia barata

Têm certas coisas que não dá pra entender... E você também não vai entender. Sabemos, já faz um tempo, que há uma preocupação para a consciência e o respeito à classificação indicativa dos filmes, programas de TV, páginas da internet, etc., relativo à faixa etária. O que é de adulto não é de criança, porque o copo da sua estrutura psíquica e emocional ainda não está pronto para receber o vinho do sexo nem o uísque da violência. Por enquanto é tempo de sucos e refrigerantes, no máximo um cafezinho morno numa xícara cuidadosamente adocicada...

Essa campanha é sobretudo dos educadores, dirigida aos pais. Surpreendente foi assistir ao movimento inverso, que no mínimo é confuso e sem sentido: os pais tentando conscientizar a escola sobre a importância dos conteúdos apropriados para a idade dos seus alunos... É difícil de acreditar, mas eu não estou fantasiando, nem criando, nem aumentando. E as coisas caminharam da pior forma possível.

A instituição educacional, com toda a louvável criatividade e espírito de iniciativa, promoveu uma atividade diferente, organizando a exibição de filmes para a turma. Produções indicativas de 16 e 18 anos, para alunos de 12!, cuja violência desencorajou a presença até mesmo da bebezinha da professora...

Mas todo mundo erra, não é verdade? Não sejamos tão maldosos e críticos... Por isso a mãe alertou por escrito a direção, no sentido de promover a adequação dos conteúdos, selecionando outros DVD's. Espera-se, é claro, um belo pedido de desculpas por parte da escola, para, em seguida, nobremente envergonhada, realizar as devidas conformações. O pior foi a reação: retiraram da sala de aula unicamente a filha dessa mãe "desaforada", explicando o episódio aos demais alunos, de modo que todos passaram a zombar da menina... Haveria conduta mais inadequada do que essa?

Nem mesmo a visita pessoal dessa mãe modificou o cenário. A tragédia somente foi contornada, a custa de muito desgaste e de outras visitas, acompanhada de advogada, inclusive. Ao invés de acatarem a crítica, suspenderam a atividade, como um menininho mimado...

Chega a ser surreal... Um sentimento impactante de paralisante abandono... De uma preocupação e desconfiança assustadora sobre tudo o que nos cerca... Socorro.

Aliás, acho que vou alterar o título do texto. Essa pedagogia não é nada barata, e o valor da mensalidade é prova suficiente. Vou chamar "Pedagogia de barata". Seria a classificação mais indicada pelos melhores estudiosos...

O professor

Quero aproveitar este dia simbólico que passou para dizer o que penso sobre o professor, a quem aprendi a simpatizar, admirar, venerar e até invejar. Hoje estabeleço uma relação meio sagrada com ele, exagerada mesmo, anormal. Revelarei o que acho deles, sem medo de errar - o que não me causaria qualquer constrangimento, desde quando me tornei um sem vergonha...

Entendo a educação como meio, e não um fim em si mesma. Ela está sempre direcionada para alguma coisa: desenvolvimento de habilidades e cognição, formação humana, qualificação profissional, etc. Está sempre a serviço, contribuindo para um determinado objetivo. É meio, mas não significa que seja pouco importante, uma vez que é meio indispensável, daí sua relevância. Vejo o docente assim.

O professor é um serviçal, que se coloca como instrumento na vida das pessoas, a quem chamam aluno. Trabalha para o crescimento dos outros, o desenvolvimento alheio, a conquista e realização dos sonhos de terceiros... Se volta inteiramente para fora, exercitando aquilo que se opõe ao egoísmo... Não realiza muita coisa sozinho, por ser acessório. O principal são os educandos, que constroem a sua história, desenvolvem suas potencialidades e decidem o seu caminho...

Talvez o professor seja como um bote que atravessa um rio ou um lago, levando pessoas de um lugar para outro. De um mundo conhecido, seguro e monótono, para outro novo, dinâmico e atraente, por ser misterioso... Nesta aventura, quem escolhe o percurso até o seu destino é o remador e não o bote. Para isso, devemos enfrentar com coragem e confiança a força oposta das águas e a fatigante distância do trajeto. Assim é o professor essa base (sem a qual nos afogamos), esse indispensável sustento, que nos dá o suporte necessário, mas que não pode (e nem consegue) assumir nosso papel principal de fazer nossas escolhas e trilhar nosso próprio caminho. No final, o mérito será sempre nosso, valentes marinheiros!

Fazendo outra analogia barata, o professor seria como um treinador de futebol, que não chuta, nem faz gol, que não defende nem ataca, apenas administra talentos. Que, para ser campeão, deve criar um espírito positivo de interação, cooperação e solidariedade, a fim de que se consiga extrair o melhor de cada um e o conjunto possa render o máximo possível. E as estrelas serão sempre nós jogadores!

É neste papel secundário, porém indispensável, que exergo o docente. Penso que o sucesso do ensino e aprendizagem será melhor quando ele se der conta de que é menos do que parece ser, e os estudantes, mais do que pensam que são... Em palavras fáceis e duras: o professor precisa baixar a bola, para elevar a bola dos alunos. Assim será um educador de verdade, assim será grande, imenso...

O professor não dever se apresentar para dar show e impressionar os que o ouvem, porque ele não é artista, a sala não é teatro, os alunos não são platéia e a aula não é espetáculo. O paradigma é inverso: o professor deve atuar para proporcionar o show dos alunos, desenvolvendo seus talentos, estimulando suas potencialidades, deixando brilhar suas estrelas...

Quando assisto à aula de um bestseller, saio admirado com a metragem da sua inteligência e, ao mesmo tempo, convicto do tamanho da minha burrice, agravando meu problema de baixa auto estima. Mas quando participo de um encontro, onde construímos conceitos, debatemos idéias, interagimos conteúdos, errando e acertando com a mesma naturalidade, saio entusiasmado, motivado, feliz...

Neste palco, o esforço do educador deve se direcionar para o Oscar de melhor ator coadjuvante (o que seria magnífico e digno de toda honra); porque o protagonismo, o destaque e a estrela maior, deixemos para os educandos (bom que fosse assim).

O professor é essa profissão de meio e sementes, cujo fim e frutos serão gloriosamente experimentados por aqueles que se enriqueceram do seu trabalho, carregando coisas boas e úteis para a felicidade na vida, a realização pessoal e o sucesso profissional. Se a educação é o caminho, o professor é a passagem, a parada obrigatória e fundamental na construção de um futuro melhor, e que seja para eu e tu, nós, vós e eles...

Aos professores do mundo inteiro, de todas as épocas e todos os estilos, meu louvor e minha reverência!

Começando pelo Fim

Estou tendo a oportunidade de estudar Inglês e Espanhol, depois de muito tempo. Estou motivado, querendo aprender a me comunicar, entender e fazer-me entender em outra língua. Estou curioso, interessado e tudo o mais. Matriculei-me nos estágios iniciais, compatíveis com a minha fluência quase zero dos idiomas. Nem Português eu sei falar direito.

Às vezes me acho muito crítico com relação à Educação, mas não consigo me calar, porque esses assuntos me atacam os nervos. É porque algumas coisas não me entram na cabeça... Triste de mim. Faço parte daquele grupo, que me parece numeroso, de pessoas que tem dificuldade e timidez para soltar a voz, arriscar, errar, até finalmente aprender a falar em línguas estranhas. Faço parte do grupo que abandona os cursos, porque não se adapta. Me uno a essas pessoas. Desta vez vou continuar, porque é caso de necessidade mesmo. Não tenho escolha. Sei que vou aprender, mas estou convicto de que o farei da forma errada, de um jeito mais difícil.

Mal sei falar e já estão me empurrando a Gramática estrangeira goela à baixo, declamando aquelas conjugações verbais sem fim, num decoreba martirizante... Tempos verbais, imperativo e o escambal. Aprendemos na mara! Este é o método.

Penso que o desenvolvimento de uma linguagem deve se dar naturalmente, mais com o coração do que com o cérebro, como ocorre com as crianças, em suas línguas nativas. Como aprendemos o português? Primeiro ouvimos e entendemos. Depois soltamos a voz, repetindo os nossos cuidadores. Em seguida aprendemos a ler para, ao final, escrevermos. E a gramática? Esses detalhes vêm depois, quando já adquirimos uma fluência razoável.

Antes de conjugar verbos eu quero me comunicar, compreender e ser compreendido! Não posso me obrigar a começar já falando certo, sendo corrigido o tempo todo. Isso bloqueia o aprendiz. Quero ser capaz de me expressar em outra língua, soltando a voz sem reservas - como uma criança -, mesmo que não seja da forma mais correta, privilegiando, sobretudo, a "comunicação". Quero me animar primeiro para, a partir daí, lapidar o idioma, enriquecer o vocabulário, aprofundar as regras e exceções.

Estou nos primeiros estágios martelando a gramática. Outro dia conversei com um aluno concluinte. Perguntei o que se estuda no final do curso e ele me respondeu que é só conversação. Que não vê mais gramática, nada disso. Achei uma contradição... Fiquei confuso. Seria mais coerente que eu estivesse praticando o diálogo, e que ele estivesse aprofundando o idioma detalhando a gramática...

Tive a sensação de que estou começando pelo fim...

Minha reverência

Não posso passar esta data (dia do professor) sem dizer qualquer coisa.

Muitos de nós, durante a infância, passa mais tempo com o "tio" ou a "tia" da escola, do que com os próprios pais, ocupados legitimamente com o trabalho. Eu fui uma dessas crianças. A nossa educação é feita em casa e na escola, pelos pais e professores. Por isso a minha reverência!

Sou filho e neto de professores, e acho que isso fez nutrir naturalmente em mim uma grande admiração pelo ambiente escolar e acadêmico, reconhecendo desde cedo a importância deles na nossa formação. Provei também da euforia e libertação que o conhecimento pode trazer ao ser humano, quando passa a reconhecer-se como cidadão e entender um pouco mais do mundo a sua volta. E o professor é talvez o maior responsável neste processo.

Não sou autodidata. Não gosto de estudar sozinho. Gosto é do conhecimento compartilhado e discutido em sala de aula, para o enriquecimento de todos. Prefiro o professor ao livro. Prefiro o diálogo ao monólogo. Não admiro o mestre. Quero um professor mais amigo, simples, que se "rebaixa" ao nível de nós pobres alunos, para nos emprestar um pouco de seu conhecimento, experiência e maturidade, me fazendo feliz. O professor para mim é sagrado.

Não quero dá um de sindicalista, mas penso que esta classe seja a mais desvalorizada do Brasil. Não consigo compreender que um professor seja pior remunerado do que eu, que trabalho num cargo de nível médio, executando um serviço administrativo, altamente burocrático e repetitivo. Não consigo digerir essa informação...

Presto, através desta simples postagem, minha homenagem aos professores do mundo inteiro, desejando a eles o entusiasmo necessário para realizar seu ofício, tão nobre e desafiador; sonhando com o dia em que eu possa carinhosamente chamá-los de "meus colegas de profissão".

De vez em quando, umas verdades...

O professor de Direito Eleitoral fez um desabafo ontem na sala. Falávamos de perda de mandato, ações e processos eleitorais, essas coisas... O assunto foi aprofundando, a conversa foi ficando boa, até que ele desembuchou!

Não quero abrir um travessão aqui, porque não sei exatamente como ele falou. Mas disse que tem coisas que só acontecem no Brasil... Disse que não entendia como um desembargador levou um mês para se declarar suspeito no processo que queria (ou quer) a cassação do prefeito de Campina Grande. Quero esclarecer (para quem não sabe) que qualquer juiz pode se declarar suspeito e se afastar do processo (tá na lei). O que ele não entendia era demorar tanto tempo para fazer isso, numa coisa tão importante. E todo mundo esperando...

Outra coisa que ele disse foi a Paraíba ter que esperar vários meses o Ministro do Supremo Tribunal Federal voltar de uma licença médica, para que se viabilizasse a posse de Cássio como senador. É lógico que um ministro pode adoecer, e se isso ocorrer, deve se afastar. O que o deixava com a cara vermelha de indignação é o excelentíssimo não poder ser substituído temporariamente por outro... Por quê não chama outro? Por quê isso é proibido? E se dois ou três pegarem dengue? Vai ficar tudo parado? Sim, vai!

Ele disse mais. Que a teoria que ele ensina (muito bem, por sinal) não tem nada a ver com a prática corrompida da política e do direito lá fora... Que ele não vê a hora de se aposentar para procurar outra coisa pra fazer! Terminado o desabafo, pediu desculpas e encerrou a aula.

Como eu gosto dos reveladores desabafos! De vez em quando, umas verdades... É, sem dúvida, o melhor da aula.

Tenho dito (na verdade, pensado) que aquela aula puramente teórica, desligada da realidade, dos desafios e incoerências, próprios do mundo, é mais uma alienação do que qualquer outra coisa. Se não é para colaborar com a vida em sociedade, pra que serve essa formação? Pra receber o diploma, passar num concurso e ganhar dinheiro? Isso é ótimo (eu quero!), mas, sinceramente..., poderia ser muito mais.

Não quero ser radical nem parecer moralista. Estou sereno, apenas reflexivo. É que tenho visto professores desencantados com o ensino e alunos fugindo da jaula, quero dizer, da aula. E não tiro suas razões. Realmente, eles têm mais o que fazer...

O conhecimento mesmo, transforma, nos engrandece, nos tornando humildes. A mera informação (daquele artigo da lei) nem incomoda, nos ilude, com delírios de grandeza. Serve muito bem para abastecer um indispensável (e pomposo) sistema, que se retroalimenta (com fartura) e não está nem aí pra fome do mundo.

CEA

CEA é o Centro Educacional do Adolescente. Uma instituição que acolhe menores infratores, e por isso mesmo é conhecida por alguns como “o presídio dos adolescentes”. Você sabe que o adolescente não pode ser preso, porque é de menor. Então, quando cometem uma infração grave (homicídio, assalto, tráfico de drogas, etc.), são internados no CEA.

Tive a oportunidade de conhecer o CEA num estágio relâmpago de apenas duas semanas. Mas deu pra sentir o clima daquele lugar: é um presídio. Grades por todos os lados, revistas constantes, segurança permanente, sala de isolamento, dia da visita... já houve até rebeliões, fugas e atentados ali dentro – mataram um por sufocamento. É ou não é um presídio? Quase a totalidade dos internos são usuários de drogas. Boa parte é viciada em crack...



Tenho dito que o sistema prisional é um sistema falido, por uma única razão. A prisão serve para recuperar a pessoa, resgatar a sua dignidade, oferecer oportunidades para a mudança de vida, retirá-lo da marginalidade e trazê-lo à vida social. Pergunto: o presídio cumpre o seu papel? Resposta: não, definitivamente não! Por isso é falido. O que fazer com um garoto de seus 13 anos, inserido no mundo do tráfico, praticando homicídios e assaltos como gente grande? Da mesma forma, precisamos recuperá-lo. No CEA, disseram-me que o índice de reincidência é alto, muitos morrem ao serem postos em liberdade e recuperação mesmo é coisa rara. É ou não é um presídio?



Não sei o que fazer para recuperar alguém que é de outro mundo, diferente do meu e do seu. Um mundo de agressões físicas e psicológicas constantes e muito, muito intensas, a começar de casa, continuando-se pela rua, completando-se na escola... Sem carinho, atenção, respeito... Com fome, pobreza, miséria, ignorância... Fazer o quê com uma pessoa dessa? Esperar o quê de uma pessoa dessa? Família não tem ou, se tem, melhor que não tivesse, pois “melhor sozinho do que mal acompanhado”... O lar é um terreno de violação de direitos, de ofensa à dignidade, de desprezo e brutalidade... Esperar o quê de uma família dessa e sua prole? Infelizmente, o pior.



Nessas horas eu penso que tive sorte em nascer onde nasci. Sorte, a palavra é essa: sorte. Poderia ter nascido em outros lugares, em outras famílias. Poderia ter nascido na Somália, na Etiópia, no Haiti, e em tantos outros lugares, onde não existe nem vida... Isso não é vida. Tenho certeza que eu não seria uma exceção. No lugar destes adolescentes que vi no CEA, com a vida deles, com a família deles, seria exatamente como eles...



Nunca me esqueci do ditado que diz: “para todo problema complexo, existe uma solução simples e errada”. Não tenho nenhuma pretensão de resolver a situação dos adolescentes do CEA. A coisa é séria, o problema é difícil. Se conseguisse, já teria ganhado o Prêmio Nobel da Paz ou seria no mínimo Ministro da Justiça. Contudo, de uma coisa eu tenho certeza: precisamos enfrentar o problema, quebrar a cabeça...



Acredito na força da educação. Lá no CEA eles têm aulas todos os dias. Tive a curiosidade de ver os livros que eles estudam. Quase choro. O de História falava sobre a Fenícia, os Persas, os Gregos... O de Geografia era sobre cartografia, coordenadas geográficas... O de Português eu não vi, mas acho que é Morfologia, substantivos, adjetivos, verbos...



Sinceramente pensei: que utilidade têm estes conhecimentos para esses garotos, que estão lutando pela sobrevivência, para escapar do triste fim? Na minha opinião, de nada serve. O que tem haver o Feudalismo com tudo isso? E os advérbios? Para eles é perda de tempo. Precisamos falar o que eles precisam ouvir, e não o que o currículo exige. O caso é muito especial e por isso precisamos fugir do convencional. Esqueçam as frações impróprias ou os afluentes do Amazonas! Vamos ensinar sobre a vida, a família, a realidade, o sofrimento, as drogas, as perspectivas, as possibilidades, as saídas, as esperanças... Isso é útil e sim necessário! Não resolve por si só, mas ajuda. É o mínimo que a educação pode fazer por eles neste momento... Reprodução dos protozoários não dá!

Os muros da universidade...

Vejo a universidade como a institucionalização do conhecimento, assim como a igreja é a institucionalização da religião. Entendo também que o conhecimento é tão sagrado como a fé. No entanto, há uma diferença entre os dois: a religião é oferecida a todos, o conhecimento apenas a alguns.

Vejo a igreja abrindo as portas, querendo transmitir a religião, e as pessoas resistindo... Vejo as pessoas querendo receber o conhecimento e a universidade fechando as portas, resistindo... É curioso. O movimento é inverso: um libera, o outro retém. Não concebo a ideia de se ter que mendigar o conhecimento, porque ele é de todos, pertence à humanidade. Mas infelizmente é isso que tenho visto.

Fico desconcertado, até mesmo constrangido, quando vejo na universidade, por exemplo, 500 pessoas querendo cursar uma pós-graduação, quando apenas 5 poderão fazê-lo. No meu vestibular mesmo: dois mil queriam fazer o curso, mas só havia quarenta vagas. Isto significa que nada menos que 95% não conseguirão, ou seja, o conhecimento é negado a quase todos e disponibilizado (com muito esforço) a apenas cinco por cento dos desejantes. Tem alguma coisa errada.

É por isso que me agrada a existência de universidades privadas. Se o Estado não consegue dar oportunidade a todos os milhares que desejam adquirir uma formação em nível superior, outras instituições deverão fazê-lo. O conhecimento não pode ficar retido. Quanto mais conhecimento se disseminar na sociedade, melhor. Teremos melhores eleitores, melhores trabalhadores, melhores empresários, melhores consumidores, em fim, melhores cidadãos, o que certamente beneficiará a todos.

Na minha universidade, sinto falta dos negros, dos pobres, dos deficientes; sinto falta dos oprimidos, marginalizados e excluídos; porque sei que o conhecimento liberta, inclui, trás cidadania e independência. Alguns grupos precisam ter acesso ao conhecimento, que existe há séculos e não é propriedade de ninguém... Por isso sou favorável à política de inclusão das cotas. Não podemos negar o acesso ao conhecimento justamente àqueles que mais precisam dele. Isso não está certo.

O nosso país é muito carente de médicos. O conhecimento técnico-científico da medicina existe (é milenar) e é capaz de salvar vidas e prevenir mortes... Precisamos de muitas, muitas pessoas que possam recebê-lo para, em fim, aplicá-lo em benefício dos milhões espalhados por este Brasil continental... Este conhecimento não pode ficar enclausurado pelo Estado nas universidades públicas, distribuído às migalhas. O conhecimento não pode ser monopólio do Estado. Isto é até perigoso. Se outras instituições particulares querem oferecer a formação médica, sejam bem vindas! Nós precisamos.

Quero ver as universidades públicas crescerem, ampliarem e se desenvolverem. Quero o mesmo para as privadas. Quero ver o conhecimento se espalhar como uma epidemia viral, como um refrão de Aviões do Forró ou um pancadão do baile funk...

Não pense o amigo que esqueci de considerar a qualidade destes cursos. Isto é um problema, um grave problema. Mas tenha certeza, tenha certeza que a solução não é fechá-los...

Os muros da universidade devem cair, como caiu o muro de Berlim. E um novo mundo se abrirá para muitos. De conhecimento, oportunidades e realizações. Enfim, de dignidade e cidadania. Eles também merecem.

Aconteceu...

Certo dia, caminhando pelos corredores da faculdade, me surpreendi com um professor ministrando uma aula para ninguém. Isso mesmo.

Estava eu atrasado para a segunda aula da noite e, encabulado, antes de entrar na sala, deparei-me com algo inusitado: não havia alunos. Meio confuso, disfarcei e, da porta mesmo, saí de fininho. Não tive coragem de entrar.

Fiquei me perguntando: porque o professor ministrava a aula? Falava para quem ouvir? Tem professor meio doido, não é mesmo? Então dei-lhe intimamente meu diagnóstico de insanidade mental, fui pra casa e tentei esquecer o ocorrido.

No outro dia, acessando o e-mail da turma, li o desabafo de uma colega, que se dizia bastante envergonhada, porque, na noite anterior, fora a única aluna presente. Pude então entender que na verdade fui eu que não a avistei. Fato curioso que a deixou desconcertada, revelava, foi o professor discursar no plural, utilizando expressões do tipo: “vejam vocês...” ou “como podem verificar...” ou ainda “percebam que...”, com se estivesse falando para uma platéia...

Porque ele falava no plural para uma única pessoa? Parece até um discurso automático, gravado, que não se pode mudar. Isso é esquisito. Tão esquisito quanto, num universo de mais ou menos 40 alunos, apenas um querer assistir a aula. Não era feriado nem imprensado. Foi desinteresse geral mesmo. Desinteresse de estudantes do curso de Direito de uma universidade federal...

Interessante foi o acordo que fizeram. Chegaram à conclusão de que um quorum muito pequeno poderia chatear o professor e fazer com que ele quisesse prejudicar os alunos. Então dividiram a turma em grupos, de acordo com a letra inicial dos prenomes. Por exemplo:

   - 1º grupo: iniciais de A – D;

   - 2º grupo: de E – I;

   - 3º grupo: J – O; e

   - 4º grupo: P – Z.

Assim os grupos se revezariam de modo a manter um quorum minimamente satisfatório, sem que os alunos precisassem assistir a muitas aulas. Firmaram um pacto de solidariedade mútua e juraram fidelidade ao contrato.


Este é um exemplo emblemático de um fenômeno que me parece comum: aluno não gosta da sala de aula. O problema é do aluno, do professor ou dos dois? Penso que o professor seja o maior responsável (talvez, quando eu for professor, pense diferente).

A aula precisa ser interessante para o aluno e também participativa. Enquanto o professor continuar a fazer da aula um trabalho dele próprio, ele vai continuar falando sozinho, porque o livro continuará sendo mais interessante...

A aula é uma construção de um grupo, do qual o aluno é a peça principal, opinando, perguntando, discordando, errando e acertando. Enfim, participando. Sem autoritarismos, arbitrariedades ou disputa de poderes...

Todo aluno é fantástico em potencialidades. Portanto, o encontro de vários deles poderia sê-lo também.

Formação nada cidadã...

Tenho percebido que nossa educação, da família à universidade, passando pela escola, é a de saber como as coisas são ou devem ser, sem questionamentos ou discussões, e isso mata as potencialidades de qualquer um. Tudo é tão relativo, para ser pronto e acabado... A vida é tão reticências, para ser ponto final... A ciência muda tanto, para ser uma verdade absoluta... Valoriza-se quem detém o maior volume de conhecimento – seja ele qual for – e não quem adquire uma capacidade crítica sobre eles.

Na escola, estudamos detalhadamente as briófitas: plantas que medem dois centímetros e vivem sei lá aonde. Estudamos seu tecido celular, sua respiração e trocas gasosas, sua vascularização e reprodução, como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Mas pouco se fala do desmatamento da Amazônia, de desenvolvimento sustentável, de biodiversidade ou desperdício de água potável. Eu era fera em trigonometria, mas até hoje não sei pra quê... Meu problema é com o orçamento familiar, que só usa as quatro operações...

Na universidade, no curso de direito, ninguém quer discutir nada. Só quer receber aquele conhecimento “pronto” e absorvê-lo; fazer uma prova e receber o diploma; passar num concurso e receber o salário. Por isso que ir pra aula é um saco (ah!, se não fosse a reprovação por falta...). Ninguém quer saber mais de professor: em casa mesmo leem o livro e adquirem o conhecimento. Mas com livro não há diálogo: há sim uma pregação doutrinária, quase sagrada, diante da qual ou você escuta calado ou fecha o livro. Agora, discutir, dialogar, construir um conhecimento a partir da experiência de todos: só na sala de aula. Mas o professor não se presta a isso (ainda querem ser os “mestres” de outrora, transmissores de um saber superior), muito menos os alunos, com outras preocupações.

Pergunto novamente: que formação é essa? Os códigos de Processo Civil e Penal estão prestes a serem substituídos, porque certamente não estão servindo. A sociedade critica-os e muito, mas na universidade, no nosso casulo, estudamos estes códigos como se fossem eternos e os melhores. Não discutimos o que há de ruim neles, as possíveis mudanças que virão, ou as reivindicações da sociedade, que pressiona, clama por justiça e espera mudanças, muitas mudanças. Apenas aguardamos o novo código entrar em vigor, os livros serem publicados, para a gente ler e ficar sabendo como é agora. Legal, não é? A gente não quer participar.

A gente não quer participar porque nunca fomos acostumados a isso. Porque, desde o ventre, recebemos uma formação, não de cidadãos, mas de súditos. Súditos de meia dúzia pensante, que, mesmo de boa fé, por ser apenas meia dúzia, podem errar muito mais.

Meus amigos linguistas...

Logo que entrei na universidade para o curso de fisioterapia, nos matriculamos na disciplina de Português. Eu sempre fui meio traumatizado com Português, com gramática, por isso estava um pouco apreensivo com o que viria...

Já no início da disciplina, a professora fez uma atividade em sala de aula, na qual deveríamos elaborar um resumo de um texto que ela nos apresentou. Fiquei meio nervoso, mas fiz e entreguei.

Na aula seguinte, a professora disse que gostou dos nossos textos, mas um havia lhe chamado a atenção... “Quem é Leonardo?”, disse ela. Gelei e levantei a mão. Ela elogiou minha capacidade de síntese, mas se disse impressionada, porque eu cometia ERROS PRIMÁRIOS DE ORTOGRAFIA!, e ficou remoendo essa história. Sorri para ser legal e, resumindo, tranquei a disciplina.

Uns dois anos depois, já tendo desistido do curso, me matriculei numa cadeira qualquer de português (do curso de turismo, inclusive), para me preparar para o vestibular de Direito. Era uma forma de estudar português gratuitamente, já que a minha situação era preocupante, como vocês viram.

Para minha surpresa a professora era uma lingüista - eu nem sabia o que era isso. Mas ouvi coisas belíssimas, libertadoras...

Que a comunicação é o mais importante e que a fala ou a escrita se presta a essa função, portanto, se a comunicação acontece corretamente, não é uma gíria, um erro ortográfico ou uma expressão coloquial, sem o rigor do idioma, que vai prevalecer. Resumindo: o importante é o conteúdo e não a forma.

Que as variações da nossa língua (o falar nordestino, por exemplo, ou a gíria dos grupos adolescentes) não devem ser causa de discriminação. Um “s” por um “z”, um “ch” por um “x” ou um “ç” por “ss” é algo muito pequeno frente àquilo que se quer transmitir, o que se quer comunicar.

Deste dia em diante virei um “sem vergonha” para escrever. Não tinha mais preconceito comigo mesmo.

Se a comunicação entre as pessoas acontece, e acontece corretamente, isso já é belíssimo, a troca de conhecimento, de informação, de experiência, o aprendizado mútuo... Isso é o que importa.

Discriminar uma pessoa por seus erros ortográficos, sem se dar conta do conteúdo que ela quer oferecer ao mundo é reprovável, é lamentável, é combatível.

Meus amigos lingüistas um dia me libertaram...

Um espírito diferente...

Era mais uma aula inaugural de mais uma disciplina do curso, na universidade. Eu, surpreso, começo a perceber algo estranho na sala... Um espírito diferente pairava sobre nós... Um novo discurso de um novo professor me atraía, me provocava, me incomodava, me encantava; mas eu não sabia o que era aquilo...

Ao final de uma aula, sempre a expectativa da próxima...

Percebi que esse espírito queria “baixar”, precisava “baixar” e se encarnar em alguém. Passou-se quase um período inteiro para eu perceber que espírito era esse. Em fim, baixou!

Era o espírito do direito, chamado justiça.

Fazia três anos que eu ouvia falar em direito todos os dias na universidade, mas sobre justiça era a primeira vez... Era estranho.

Me lembrei que o fim do direito é a justiça; que direito é só meio, e que a justiça é que é o fim. Então porque durante esse tempo todo só se ouviu falar em direito? Porque não se fala em justiça? Aliás, só se fala em justiça para dizer: “direito é uma coisa e justiça é outra”.

Ora, direito é uma coisa e justiça é outra, mas não estão tão dissociados assim – pelo menos em tese. Se queremos um direito mais justo, porque distanciar tanto os conceitos? Que formação é essa?

Pelos corredores da faculdade, se fala todos os dias em direito, mas em justiça não se ouve. E quem quiser falar em justiça certamente afastará os amigos... será um cara estranho, chato, careta... Vai entender...

Um espírito diferente tem que baixar, um espírito diferente...

Uma homenagem ao professor Zéu Palmeira Sobrinho.

Teoria da Prática Jurídica...

Dizem que a universidade é muito teórica e pouco prática. Que ela é mais voltada para a formação de pesquisadores e cientistas, do que para a preparação do profissional para o mercado de trabalho convencional.



Tenho uma história interessante a esse respeito:



No curso de Direito, a primeira disciplina prática ocorre apenas no 7º período, com o nome de Prática Jurídica I.



A ansiedade era real, pois pensava que finalmente, depois de mais de três anos de teoria em sala de aula, teríamos atividades externas, nos fóruns, assistindo a audiências, acompanhando processos, como se fôssemos advogados. É o que se imagina.



Foi uma surpresa. Aulas normais, dentro da sala de aula. Aulas sobre prática jurídica... A mesma coisa de sempre.



Penso comigo: porque então se chama Prática Jurídica? Seria melhor Teoria da Prática Jurídica, ou, para ficar mais bonito, Teoria Geral da Prática Jurídica; poderíamos até abreviar para TGPJ...



O que não poderia ser é Prática Jurídica, para não causar mal entendidos.



Bem... Ainda não foi dessa vez.

PRINCÍPIOS...

Pelos corredores da universidade, flagrei um colega de turma conversando com um professor sobre a importância do Direito Constitucional na formação jurídica dos alunos. Entendiam que a Constituição deveria ser estudada durante todo o tempo da graduação, pela sua relevância; não apenas durante 1 (um) ano e secundarizada nos outros 4 (quatro).

A Constituição é a espinha dorsal da ordem jurídica. Ela é fundamental porque é principiológica, e princípio é a coisa mais importante para o direito. Sem ele o direito se afasta da justiça, seu fim, e perde a razão de ser. Sem ele é medíocre, estritamente técnico e arbitrário; com ele é virtuoso, analítico e justo.

Um advogado me disse que um princípio derruba um código. Vale mais que lei, norma, artigo, inciso ou parágrafo.

Princípio é tão importante, tão forte, tão imponente, quase sagrado, que não deveríamos nos aproximar dele de qualquer jeito, às pressas, com banalidade. Não deve ser falado em 5 minutos e “pulado” para o próximo assunto. Quero dizer, princípio não deve ser meramente conhecido, mas “encarnado”. A final de contas, princípio é ideologia...

Deve ser assimilado, internalizado racionalmente, sem pressa, através de uma reflexão crítica, amplamente debatida. Podemos até rejeitá-lo ou admiti-lo com reservas, mas sempre o entendendo ideologicamente. Discutir princípios no direito é compreendê-lo ideológico e politicamente. Mas ninguém quer saber disso...

Portanto, princípio não é um assunto, é o assunto; o vetor mais importante, com força, direção e sentido.

Venho de uma aula. O que é isso?

Venho de uma aula na Universidade, na qual uma professora entra, começa a falar continuamente sem parar, até ser interrompida por um aluno ousado que faz uma pergunta; ela responde e imediatamente com ar de pressa continua a falar, falar, até ser novamente interrompida; e então segue por mais ou menos uma hora e meia neste ritmo até se despedir de nós. O que é isso? Uma aula? Uma obrigação?

Não sei por que valorizo tanto o ambiente escolar e acadêmico; não sei se é porque meu pai é um professor nato e por isso recebi sua influência, mas o fato é que aprendi a importância do conhecimento e provei da euforia do aprendizado, quando feito como troca e interação entre as pessoas.

Aprendi que o professor não é nem de longe o único detentor do conhecimento – em outro sentido pode ser aquele que mais precise aprender – e que o aluno não deveria ser tão passivo em uma sala de aula. Porque fazer de uma aula um sacrifício? Não dói, estamos em um ambiente estruturalmente confortável, com pessoas dispostas a trocar experiências – seja ela qual for. Não há ameaças, agressões, poluição de qualquer gênero. Por que é tão ruim estar em uma sala de aula? Porque os alunos hoje se fazem presentes só para responderem à chamada ao final ou para meramente fazer uma prova em breve?

Não há alegria, não há entusiasmo, não há nada... Olho para frente, vejo um robô que solta uma gravação pré-programada; olho para o lado, vejo robôs parados, esperando a aula acabar... Me dá desespero, raiva, revolta, tristeza, tenho vontade de sair (mas lembro que tenho que responder à chamada), tenho vontade até de chorar... O que me consola são as conversas paralelas que tenho com os vizinhos – pois não consigo me conter parado – e também quando vejo outros colegas fazerem o mesmo, pelo mesmo motivo. Me consola porque vejo que na verdade não somos robôs, somos gente, que nascemos para a interação e para a troca, para o crescimento e aprendizado mútuos.

É tão bom conversar, todos gostam; porque então não fazer da sala de aula um momento de conversa, partilha, troca, debate, discussão, ensino e aprendizagem? Por que um só dando e os outros só recebendo? Que aleijo é esse? Como se diz: o “professor” fingindo que ensina (cumprindo com sua obrigação) e os alunos fingindo que aprende (cumprindo com seu dever). Isto me ofende porque acho que posso contribuir também e tenho certeza que os meus colegas também podem, mas não nos permitem isso. Sinto com se não acreditassem em mim, que não me deixam falar porque o que tenho a dizer não merece confiança, o que eu tenho a dizer é inútil ou errado, sinto o mesmo em relação aos meus colegas.

É incrível como, quando saio de uma aula como essa, saio me achando um burro, um jumento, que não sei de nada, etc. Dá desespero, preocupação, medo, sei lá o quê. Mas quando saio de uma aula onde todos puderam participar, saio motivado, entusiasmado, pensando que, apesar de ainda ter muito o que aprender sobre o direito, estou no caminho certo, vou chegar lá, etc.

As coisas poderiam ser mais fáceis, ou, pelo menos, menos difíceis. Aluno precisa de incentivo, motivação, provocação (no bom sentido da palavra), não de ameaça ou disciplina exagerada. Ele precisa pensar, não reproduzir; criar, não copiar; discordar, não concordar; em fim, ele precisa atuar, ser agente, colaborador; ele precisa aprender com a experiência, com a troca e a interação; e não se colocar como um mero expectador de uma ciência que vem para ele de fora pra dentro goela à baixo!

Me revolta ver dezenas de estudantes com um potencial fantástico dentro de si, mas que no colégio e na universidade são tolhidos, sem espaço, sem direitos, sem nada. Quem sai prejudicado somos nós cidadãos, que não recebemos os frutos de sua experiência, sua inteligência, seu potencial. Muitos no trabalho desabrocham, o que é ótimo, mas outros, como uma professora, nem no trabalho...

O que é isso? Quase um crime.