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Quando deus se manifesta

Essa história deve ter acontecido há muito tempo, mas me lembro como se fosse 1º de julho de 2016. Naquela sexta-feira à tarde, fim de tarde, providencialmente a vida me reapresentara, anos depois, Fernando, no ponto de ônibus, de volta pra casa, para atualizarmos os papos. Entre deus e o diabo, ficamos com Nietzsche, mas depois ficamos com deus mesmo...

Dizia ele que deus se manifesta através da realidade, da forma como ela se apresenta. No entanto, muitas religiões atribuíam à deus, apenas uma parte da realidade. A outra parte que desagradava não seria portanto divina, mas reprovada como pecado. Se o mal, o ódio e a inveja não foram criados por deus, seria então obra de um outro criador?

Devaneios à parte, tomamos como exemplo as folhas diante dos nossos olhos, que quase me tocavam os ombros. Elas estavam feias, cheias de manchas escuras, ressecadas, meio queimadas e ásperas, estragando aquele verde naturalmente tão vistoso... Refletíamos que fomos formados para atribuir apenas o verde à deus, porque a parte ressecada a gente vê como um defeito, um erro ou um mal necessário. Porque não admirar também aquelas manchas como uma manifestação divina? E mais: porque o ressecado, escuro, áspero e queimado é feio?

Foi quando lembrei da sovaqueira e entendi o propósito daquele encontro. Era tão entusiasmante a conversa, que não havia dado conta de que estava triste e desconsolado. Contei que deus havia tristemente se manifestado até poucos minutos - na verdade ainda se manisfestara - através de uma realidade nua (nua não) e crua (crua sim), mas também ácida e desagradável.

Porque havia esquecido de pôr o desodorante naquela tarde... E, exatamente naquele tarde, haveria de pegar ônibus (o que é incomum), esperando-o ao sol do meio dia por quarenta e três minutos. Um sol tragicamente aberto e forte, sem nuvens ou sombra para amenizar os efeitos do esquecimento. Correria ainda por uns seis minutos, suando e cada vez mais suado, até a sala de aula pequena, apertada e com um ar condicionado bem precário...

Percebi a garfe nos primeiros minutos de clausura. Não apenas eu. Em um dia normal sairia imediatamente, alegando a morte do meu pai falecido em 2011. Mas aquele não era um dia normal. Fui obrigado a esperar a minha vez para apresentar não sei o quê, que era pra nota. Tentei não me mexer e permanecer com os braços colados ao corpo, mas era tarde. Não havia mais o que fazer, porque deus já havia se manifestado invisivelmente concreto para mim, os colegas e São Tomé. Restou-me perturbar a respiração dos alunos e professor por interminável hora e meia, até a vez e o fim da minha fala. Foi quando corri, envergonhadamente pensando que isso valeria uma crônica, se eu não tivesse modos...

Apesar de tudo, agradeci a Fernando pelas interpretações, e a deus por ter me ensinado - com caroços de milho, diga-se de passagem - a importância do desodorante. E, agora, é claro, com uma porção redobrada de aerosol! Afinal de contas, se deus pode se manifestar de várias formas, escolhamos a melhor: sem manchas, ressecamento e queimação, protegendo você com o cuidado e a naturalidade de uma folha sempre verde e vistosa...

Plantão Hardcore

Essa história é verdadeiríssima e ocorreu há muitos anos em João Pessoa. Uma médica de meia idade, divorciada e com a vida feita, cumpria sua jornada de plantões de uma forma no mínimo inusitada, surpreendente. Para aliviar o estresse (penso eu), a doutora levava para o trabalho umas fitas cassetes, das quais fazia uso nas oportunidades de ócio ou descanso, recreativamente.

Para cumprir sua programação, pedia as chaves ao funcionário da Central de Vídeos do hospital, e lá, divertia-se. Sendo que com filmes pornô, acredite. Fazia deste desejo um hábito, sem receios, como se estivesse assistindo Frank Sinatra ou o Balé Bolshoi. Bem diferente da mamãe na sua suíte, trancada a cadeado, às duas da madrugada, com os filhos dormindo no quarto do final do corredor, a inseguros mais de 15 metros de distância, correndo-se o risco de os meninos levantarem para ir ao banheiro ou tomar água, aumentando a aproximação... A doutora, não: gostava de locais públicos, por razões que só o Kid Bengala explica.

Da mesma forma que podemos escorregar na folha seca, cair com a cabeça numa pedra pontiaguda deixada na calçada e morrer de traumatismo craniano a caminho da padaria; a médica, em um de seus expedientes de intimidade, por um desígnio caprichoso do diabo e uma fatalidade inesperada da tecnologia, teve o seu vídeo hardcore retransmitido simultaneamente em todas as dezenas de televisores para as centenas de pessoas na maternidade: das enfermarias às enfermeiras; das salas de parto às de descanso, do pré natal ao puerpério, da recepção à UTI, do vigilante ao diretor, do papai recém nascido à vovó recém chegada...

Levaram uns cinco minutos para se darem conta de que não se tratava de um fato isolado. Levaram uns cinco minutos para saírem do constrangimento ao desespero. Levaram intermináveis cinco minutos para correrem até a Central de Vídeos, quando flagraram a doutora, inocente, desfrutando a olho nu daqueles malabarismos...

Você, o que faria? Sairia correndo eternamente, como o Forrest Gump, em direção às Ilhas Virgens? Fugiria naquele mesmo dia para as missões do Médico Sem Fronteiras na África Central? Ou (mais prático) se mataria ali mesmo, torcendo para não encontrar tão cedo com São Pedro ou o Senhor Jesus?

Conta a recontagem que ela reagiu com uma expansiva gargalhada, curtindo ser o "centro das atenções"... Há quem diga ainda que a protagonista adorava relembrar essa novela para outros colegas do trabalho, não-expectadores do episódio, sentindo-se uma estrela...

Tatinga...

Me dou muito bem com minha sobrinha. Construímos uma amizade sincera desde os seus primeiros meses de vida. Acompanhei tudo, só não a dei de mamar... Ela sempre me recebe com euforia em sua casa e geralmente brincamos um pouco - de qualquer coisa, em qualquer lugar. Mal fala, mas já sabe habilidosamente o que quer (e especialmente o que não quer).

Numa dessas estávamos no sofá, meio confusos, sem criatividade, procurando o que fazer, até que eu executei a primeira ideia que me veio a cabeça: assoprar. Soprei os olhos dela (de leve), causando aquela inquietação natural, mas fazendo-a rir... Ela revidou. E ficamos assim, lá e lô.

Com o tempo, ela foi se irritando e pedindo pra parar, divertindo-me ainda mais. Claro que continuei, sendo que agora com mais entusiasmo. Ela foi meio que se desesperando, me empurrando, virando o meu rosto, dando tapas, jogando como pôde... A coisa começou a ficar sem graça, até que eu parei (um pouco constrangido).

A mãe e a tia cuidadosas, porém intrometidas, perguntaram o que havia ocorrido, quando ela ingenuamente esclareceu, para não deixar dúvidas:

   - Tatinga...

E abanou as narinas com sua mãozinha direita, reforçando com uma bela e convincente careta.

E é na cabeça!

O meu assalto recente não passou de uma brincadeira. Foi uma tentativa frustrada e tudo saiu muito bem. Ele até devolveu meu celular, sem eu sequer o pedir.... O homem foi solidário, mas foi esperto também. Percebeu que o aparelho não lhe daria muito futuro. Preferiu sair de mãos vazias, do que passar vergonha perante os comparsas, com um produto de quinta categoria, o que serviria apenas para desqualificar sua performance. Dignidade acima de tudo!

Conversávamos três amigos expansivamente à meia noite, em uma rua escura e sem movimento, sozinhos, na calçada de um clube, com a porta do carro aberta e desfrutando ingenuamente da segura liberdade de trinta anos atrás...

Discretamente, a moto chega e:

   - Escora todo mundo na parede. Se fizer qualquer coisa eu dou um tiro, e é na cabeça!

Apesar da exclamação, ele foi sutil. Voz branda e sem euforia, conduziu tudo como uma encenação de adolescente... Acreditou que não tínhamos nada a oferecer, elogiou meu colega e partiu em busca de outra vítima mais interessante.

Pensando depois em casa, conversando com a minha esposa, cheguei a algumas conclusões. Toda essa tranquilidade não diminuiu o nosso risco. Mata-se assim mesmo, por brincadeira. A banalidade colocou a vida humana como uma simples moeda de troca: "O relógio ou a vida!", "o celular ou a morte!", "dez contos de réis ou um tiro na cabeça!"...

Foi embora. Mas poderia ter disparado na saideira... É quase a mesma coisa...

Desde quando despertei, sempre que me lembro, tenho um embrulho nas tripas...

Essa é a vida, essa é a morte.

O Clube das Chaves

As fofoqueiras da calçada me contaram que o Clube das Chaves se passou em João Pessoa há muito tempo. A fundação do bairro do Miramar em 52 inaugurou também este espaço, que dava literalmente muito prazer para a socialite da capital. Era secreto e envolvia casais da mais alta classe...

Funcionava assim: eles entravam e as esposas iam logo ocupando os quartos, muitos quartos, uma em cada quarto. Ficavam lá trancadas. Depois embaralhavam-se as chaves e as distribuíam entre os maridos... Era como uma roleta russa do sexo. A formação dos casais durante a brincadeira não correspondia àquela abençoada nas igrejas sustentadas pelos dízimos dos nubentes, nem amplamente retratada pela imprensa, nas festas de gala (e bote gala nisso)...

Não critico o swing - que por sinal está super na moda -, mas a hipocrisia. Essa vida esquizofrênica, de encenar o politicamente correto (com o perdão da contradição) para a platéia, quando por atrás das colchias solta a franga, gozando justamente daquilo que aparenta resistir...

Por falar em político, tenho um caso interessante. Há um projeto de lei para regulamentar a profissão de prostituta: essa atividade tão rejeitada quanto consumida, tão descartada quanto comida... Nas audiências e sessões do Congresso, a ideia será duramente repudiada pelos mais nobres parlamentares, tenha certeza. Por outro lado, vi uma reportagem que tratava do sério problema, que é a carência de garotas de programa, frente a demanda dos grandes eventos de Brasília.

O exemplo citado foi a Marcha dos Prefeitos na Capital Federal. Um Deus no acuda! Tiveram que trazer prostitutas de Goiás e outros estados para dar conta da festa e alimentar a disposição dos mandatários e seus assessores, muitos assessores...

Quanto ao Clube das Chaves, ele se desmanchou e foi descoberto, por causa do jogo das probabilidades: o marido azarento sorteou a própria esposa (também azarenta)... Não aceitou por nada e fez escândalo!

Tem gente que não sabe jogar... Uma lástima...

LUTO

É com profunda resignação que informo a todos do meu falecimento, que ocorreu na madrugada de ontem, nas proximidades do Wi-Fi Bar e Restaurante. Ao sair deste ambiente, começo a sentir um mal súbito e uma sensação estranha na região do bolso frontal esquerdo, quando notei que o mesmo estava vazio. Entrei em pânico! Um sentimento de itálica solidão e sublinhado isolamento do mundo me arrebatou. Quiz desligar, mas fui carregado pelos amigos reais (sem graça e reais).

Levaram-me à Delegacia especializada, onde consultaram meu status e realizaram exames de imagem, com tecnologia Full HD. Esperamos completar o download clínico e imprimir o diagnóstico, nada surpreendente: "óbito em decorrência de roubo de Smartphone 3G, por volta das duas da manhã, provavelmente por ação de um hacker".

Aos que me curtiram durante toda essa linha do tempo, e àqueles que compartilharam dos links mais importantes da minha vida, desejo-lhes muito sucesso, revelado por meio de publicações e muitos, muitos comentários; seja no Face, WhatsApp, Instagram, Twitter e toda essa magnífica e perigosa rede social, que nos torna tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes...

Aos que ocultei amizades, minhas sinceras desculpas, por nunca tê-los visto antes, ou não confiar no seu perfil e não ter tido coragem de dizê-lo pessoalmente. Faz parte das relações virtuais, peço compreensão...

Aos que me negaram solicitações de amizade, meu perdão e minha compreensão também. Devo admitir que não fui tão agradável quanto imaginei que fosse...

Às efêmeras namoradas virtuais, o sexo - sem toque, sem cheiro, sem beijo, sem carne - deixará  saudades...

O legado às gerações futuras poderá ser facilmente visualizado através do meu canal no Youtube ou pesquisado no Google. Nossa conexão permanecerá pela eternidade...

Com as bênçãos do todo poderoso Bill Gates e de seu filho Steve Jobs, o salvador, me despeço deste mundo virtual para entrar na plataforma espiritual, onde não haverá virus, spams, nem e-mails indesejados; onde a bateria nunca se acaba.

Leonardo Galaxy (* 22/04/2010 + 18/10/2013).

Léo-Pidão

Os meus problemas de caráter existem desde pequeno, revelado especialmente na hora do lanche, que representa uma atraente (e tentadora) fatia da rotina escolar. Os salgados e refrigerantes circulando em massa pelos corredores, pátio e salas é de causar inveja em qualquer um que não dispunha deste cafuné nutricional, no meio das aulas. E comigo não foi diferente. Corrijo: comigo foi diferente sim, porque no meu caso faltara compostura.

Decidi acabar com esse sofrimento mirim e arranjei por conta própria uma solução. Me vali da aparente ingenuidade, carinha de anjo e do carisma que me acompanhara naquelas épocas, para educadamente, expirando desalento, pedir uma única "mordidinha" do salgado do amigo. O gole da Sukita ficava por conta do freguês. Foi um sucesso. Como conhecia muita gente, saciava-me além da conta, ao ponto de recusar generosidades!

Em pouco tempo, a fama do lucrativo empreendimento cresceu, e com ele a minha ganância. Passei então do uso ao abuso, até que um engraçadinho hiperativo (que existe em toda escola) me colocou o implacável apelido de "Léo-Pidão", o qual logo caiu na simpatia dos colegas, arruinando a minha carreira em dois ou três meses. Desconfio que esse cara deva trabalhar hoje na imprensa, ou não descobriu a sua vocação... Pensando melhor, analisando o contexto, o adúltero da trama era eu, e por isso a vida me cobrou uma pensão robusta, mas sem direito a advogado (registre-se)...

Resignado, baixei a cabeça, larguei o vício e restaurei a conduta civilizada, promovendo uma satisfatória ressocialização, porém a mancha do meu passado inglório permanecia nos antecedentes criminais. A memória curta do brasileiro não agiu para mim: o Pidão somente caiu em desuso no ano letivo seguinte, quando passei a consumir as delícias da cantina, sendo que desta vez, na qualidade de legítimo possuidor, como deve ser.

Ainda tive uma boa oportunidade de limpar a história recente e reverter os fatos em meu favor. Mas não soube aproveitar... Reativamente, os colegas passaram a pedir pedaços da minha comida - mais como teste de personalidade do que outra coisa -, ocasionando um certo alvoroço na minha psiquê. Dizem que quem passou fome permanecerá com esse temor para sempre. Até hoje consumo os biscoitos do mês inteiro nos primeiros dias da feira... A fartura me causa inquietude. Resultado é que não consegui ser nobre, escorregando sem remoço, com uma retórica nada louvável:

   - Se eu der um pedaço a vocês, nenhum de nós matará a fome, porque todos comerão pouco. Neste caso, comerei sozinho, porque assim, pelo menos alguém ficará satisfeito.
...
Concluindo este relato, acho que vou almoçar dois pastéis na bodega da esquina. Um de cada sabor, só por nostalgia... E que nenhum mendigo apareça para me pedir nada!

Novela 2 X 1 Futebol.

Parei de criticar novelas quando me dei conta do que é o futebol, cuja melhor definição é aquela dada pelas mulheres: vinte e duas pessoas correndo atrás de uma bola... É simples: o grupo que conseguir levar o brinquedinho circular até um determinado lugar, marca ponto (chamado gol). E, para ficar mais difícil, proibiram utilizar as mãos, sendo esta toda a graça do negócio. Fui obrigado a concordar...

Por outro lado, não suporto novela. Não vejo graça em acompanhar aquelas histórias de sempre: a mocinha e o mocinho, o vilão, as aventuras miraculosas, as mentiras... E tudo vai ganhando um sentido que não consigo compreender direito. Os programas de televisão, os colegas de trabalho, as redes sociais... todos começam a debater a trama e se envolver pateticamente. É mesmo perturbador...

Por que as pessoas nunca comem a comida que está na mesa, só beliscam? Por que as casas pobres são bem bacanas, perfeitamente decoradas? Por que as pessoas não arrotam, soltam pum ou falam palavrão, de vez em quando? Por que as roupas não estão um pouco amassadas ao final de um dia de trabalho? Por que elas acordam de batom, maquiagem, penteada e sem bafo? Por que só os fortes tiram a camisa? Por que as pessoas são ou perfeitas ou imprestáveis, caricatas e não normais? Chega a ser irritante...

Mas pense comigo, macho com H: existe coisa mais idiota do que discutir futebol? Apesar da fantasia, a novela fala da vida, levanta polêmicas, enfrenta tabus, constrói. Mas o futebol... Foi pênalti ou não? Foi frango ou não? O meu é melhor que o teu, o técnico é burro, o juiz tá roubando... Para pra pensar, robocop: isso é conversa de gente? Confesso meio constrangido que para mim faz todo o sentido e dá prazer. Perco a hora, desmarco compromissos... Nesta disputa, devo dizer, lamentavelmente, que perdi o jogo.

A novela me quebrou preconceitos. Me descobri normal, gente boa, que gosta de virtuosidades e banalidades, como qualquer um. É bom ser humano. E muito mais sentir-se humano! Hoje, aguardo silenciosamente o final da novela, esperando, democraticamente e com entusiasmo, o futebol... (tenho até dado umas risadas com o Félix, mas não conta pra ninguém).

Isso para mim é Amor à Vida.

O Google e a Boa Nova

"Ide por todo o mundo e anunciai a boa nova a toda criatura" (Mc 16,15).

Eis o meu testemunho:
Eu era feliz, quando minha privada entupiu. E minha vida parou junto... Só descobri o problema depois que fiz "totô" com toda segurança e liberdade... Boiava pra lá e pra cá o resíduo de um dia inteiro de intensa nutrição, há quase 48 horas! E ameaçava transbordar... Não tinha paz, nem sossego. Um verdadeiro inferno.

Tentei de tudo: água quente, soda cáustica, coca-cola... Ninguém conseguia me ajudar, nem o diabo verde. Recorri à sabedoria popular e catuquei com vara curta, pra ver se "onça" acordava, mas nada... O meu fatídico excremento já estava entrando (novamente) em decomposição, em meio a uma água que já perdera há muito suas propriedades características - incolor, inodora e insípida -, tornando-a catastroficamente irreconhecível. Não poderia contratar um técnico naquele estado de podridão... Confesso que pensei em tirar a própria vida, e uma voz me incitava a isto. Cada vez mais frequente...

As soluções aparecem quando menos esperamos. Cansado da programação da TV aberta, deitado na rede, peguei o smartphone para me distrair e não continuar pensando merda (literalmente). Fuçando aqui e ali, confessei ao Google sobre a minha aflição e apareceram várias alternativas. Muitas eu já havia tentado, o que me desesperou ainda mais, porque só comprovara que a minha situação era muito preta... e fétida. Mas restava uma. Segui as instruções minuciosamente, sem muitas esperanças... E o milagre aconteceu! Se a fé do tamanho de um grão de mostarda move montanhas, porque não haveria de movimentar um conteúdo infinitamente menor?


1. Cubra a grande "boca" do vaso com um plástico até ficar bem vedado. Eu utilizei papel filme de PVC (aquele que a gente cobre os alimentos). Certifique-se que está bem vedado, pois isto é fundamental para o sucesso do procedimento.
2. Feche o assento e a tampa para reforçar. Sente em cima para reforçar mais.
3. Ainda sentado, dê descarga e permaneça com o botão apertado. Não solte. Espere concluir esta etapa.
4. Em poucos segundos, algum jogo de pressão do ar, que eu não sei explicar, fará com que todo o mal seja exorcizado ralo a baixo...
5. Agradeça ao Google!

E lembre-se:
   - Se você crê será salvo tu e tua casa (At 16,31);
   - Mas se não crê, permanecerá condenado (Mc 16,16).

Mãe é... mãe.

Tenho problemas, e é com datas comemorativas, especialmente o meu aniversário. Não explicarei as razões remotas do transtorno, porque isso não é nada agradável (vamos combinar), nem você vai chorar minhas lamentações, tenho certeza. Essa brincadeira não é de saúde mental. É sobre mãe. A minha e talvez a sua.

Coleciono alguns constrangimentos por causa do amor de mãe. Que parece olhar pro filho, se concentrar nele, e esquecer do resto do planeta Terra. Quatro episódios aparecem imediatamente na memória e, não sei por quê, contarei a você, que me oferece, generosamente, o seu ouvido-amigo.

Sexta série (hoje, sétimo ano do ensino fundamental). Plena adolescência... Vaidade e timidez... O que menos se quer é passar vergonha e pagar mico. A aula é da professora de português, que enxergo perfeitamente se fechar os olhos. De repente, sem consulta, entra minha mãe, sorrindo, com a torta nos braços e a coordenadora ao lado, puxando o coro: "pa-ra-béns-pra-vo-cê..."! Lembro dos risos e daí em diante não lembro de mais nada... Acho que durou umas três horas e meia... A música, é claro.

Vestibular, primeira fila. Estou de cabeça baixa, talvez rezando, porque vai começar. De repente, sem autorização, entra meu irmão - a mando da minha mãe -, sorrindo, e diretamente me entrega pouco mais de meio quilo de jujuba, de todas as cores, em um saco bastante transparente (transparente como nunca vi). Lembro das gargalhadas e daí em diante não lembro de mais nada... Deixei elas eternamente mofando no chão... Até hoje...

2008, vinte e seis anos. "Pode chamar seus amigos, meu filho". Na hora H, minha mãe aparece, sorrindo, e, da cartola, retira uma coleção de chapeuzinhos de aniversário, com liga e tudo... Lembro da surpresa e daí em diante não lembro de mais nada... A liga doía...

Hoje. Meu aniversário. Um marmanjo trintenário, casado e trabalhando, graças a Jesus. De repente, sem protocolo, entra minha mãe na repartição, sorrindo, com duas caixas de presentes debaixo dos braços e uma sacola pendurada na mão - na outra a chave do carro... Lembro das brincadeiras e daí em diante não lembro de mais nada... Apertava os pacotes com o sovaco e tive medo da camisa cair...

...
Acho que vou tratar com a minha mãe. Mas desta vez será de homem-pra-homem...

bota bota bota

Quem nunca "butou"? Aquilo naquele canto? Calma leitor, estou sendo generalista: aquilo é qualquer coisa e aquele canto é qualquer lugar... O fato é que estamos sempre "butando" e não se vive sem "butar". Eu, particularmente, boto frequentemente e os médicos dizem que só faz bem...

Acontece que estou sendo vítima de uma sadia (porém injusta) discriminação no trabalho, por causa das minhas repetidas "butadas". Sou incapaz de falar por mais de 2 min sem "butar" em qualquer das suas mais variadas flexões: "butei", "butou", "butaram", "butando", "bota", "não bota", etc. Neste requisito, parece que ando acima da média e, por esta razão, a credibilidade do meu discurso anda abaixo da média.

Não me levam mais a sério, se eu "butar"... Me sinto um semi analfabeto de São José da Lagoa Tapada conversando com os "doutores" da capital; ou um paraíba abrindo a boca no sul do país... Estou divertindo as pessoas sem contar piadas - e sem ser remunerado, o que é mais grave. A sorte deles é que eu sou um legítimo sem vergonha, porque, nesses tempos de bullying, só pelo constrangimento, eu "butava" um processo em cada um e veríamos quem ri por último... Mas não precisei "butar" nada (para a sorte deles). Fui redimido com uma bênção apostólica.

O mundo é testemunha de que o Papa "butou"! O Papa! O cara do momento, que destronou Barack Obama. Se até o Papa "butou", se até Jesus (segundo ele) "bota fé nos jovens", eu acho que não só posso como devo "butar" livremente, sem reservas. Inclusive, aconselho você a "butar" mais comigo. Ou melhor, bote sozinho mesmo. Você não precisa de mim para isso...

Essa é a história do camarada Bota que, relegado e discriminado na sociedade, saiu da clandestinidade, assumindo repentinamente um status eclesiástico da mais alta patente, virou celebridade e, mesmo sem saber, encheu de orgulho o pobre coitado e humilhado cidadão que vos escreve...

Como telespectador entusiasmado, incremento, à distância, o coro dos 3 milhões de fiéis, para dizer com fé:

   - Obrigado, Papa Francisco!

Face à Face

Veja essa história:

Um colega da minha esposa organizou, com todo o entusiasmo, um encontro de seus amigos do Facebook, em uma pizzaria da cidade. Divulgou, convidou e mobilizou as massas... Quase trinta pessoas confirmaram presença, e outros tantos não descartaram a possibilidade de aparecer por lá... Foram dois meses de trabalho diário e virtual, gerando aquela ótima ansiedade de reunir pessoas "Face à Face", aprofundando as relações. Era apenas a primeira de muitas confraternizações que viriam. Já imaginava as pessoas sorrindo, aquela conversa em alto volume, gargalhadas, beijos e abraços... E viva o Face!

Metodicamente, reservou com antecedência trinta lugares no restaurante, causando euforia na administração. Tudo estava pronto e o dia, finalmente, chegara! Levou sua esposa, uma cunhada e ainda deu carona a uma amiga. Fez questão de chegar cedo, para recepcionar os convidados. Tudo deveria sair perfeito, para causar boa impressão.

Seis e meia da noite aparecem os quatro e se acomodam numa grande mesa de uns dez metros de comprimento, formada pela união de outras quinze mesas normais, unidas lado a lado, como se estivessem de mãos dadas, fazendo uma grande corrente da alegria, colaborando com a festa!

   - Agora vamos aguardar...

   - O atraso é normal, sempre acontece...

Não é invenção: às nove e meia decidiram pedir o rodízio, convencidos de que ninguém mais chegaria, além deles mesmos...

De meia em meia hora, a esposa dizia: esses teus amigos do Facebook, hein?...
De meia em meia hora, ele dizia: sacanagem, eles confirmaram...
De meia em meia hora: meio minuto de silêncio...

Comeram e comeram muito. Lotaram-se de massa, para compensar o desperdício de mesas, cadeiras e espaço no recinto...

Saciado pelo pão e enebriado pelo vinho, na hora da saída, o insistente rapaz ainda reluta:

   - Não vou desistir! Marcarei outro encontro até as pessoas aparecerem. O próximo vai ser numa churrascaria...

Um suplício

Desisto. Lamento não conseguir convencê-lo de que tudo foi verdade, nessas proporções, sem arrodeios e sem enfeite. Não há fantasia aqui. Serei jornalístico.

Hora do rush, parada de ônibus, seis da noite. O primeiro passa alegando super lotação. O segundo, quem alega super lotação sou eu. No terceiro eu entro e levo de três a quatro minutos para chegar ao cobrador, tamanha a multidão. Estranhamente, o meio do ônibus estava relativamente vazio, um oco, comparado aos demais. Enfrento corajosamente o aperto e consigo chegar até lá para me aliviar. Puxo conversa com a pessoa mais próxima, quando de repente tudo pára... Uma confusão mental me arrebata por alguns segundos e eu não consigo voltar ao normal. O que estaria acontecendo?

Fui retomando os sentidos e, aos poucos, percebendo o que se passara. Duvidei, resisti e comprovei. Comprovei de novo. Não havia São Tomé que sustentasse. Aquele homem fedia. E fedia patologicamente.

Será mentira? Não é possível... Não pode ser real... Eu juro que pensei por um momento que estivesse em um filme de ficção, uma comédia. Olhei as pessoas pra pedir socorro quando notei o estado de emergência. Todos se entreolhavam manifestando as mais variadas reações: desespero, decepção, rendição... Uns riam pra não chorar e outros choravam mesmo... Um suplício.

Conversávamos disfarçadamente, desabafando o sofrimento, mas éramos interrompidos de súbito pela "inhaca" assustadora, como num soluço... Um estudante avaliou que pior era nas aulas de anatomia. Isso mesmo: foi comparado a um cadáver. Era intenso, marcante, era ácido. Entendi o oco, o vazio. De repente, 2/3 da população transeunte só falava no monstro... Uma velhinha rezava pra Jesus ter misericórdia dele e eu pedindo a sua condenação...

Ele insistia em conversar comigo, já que minha simpatia havia lhe dado cabimento de início. Falava da ex-mulher e eu com pena da mulher... Falava do puteiro e eu com pena das raparigas... Com um pouco, ele inventou de se sentar ao lado de uma senhora, cuja narina alinhava-se com o suvaco. Essa foi imperdoável.

Tomado de profunda compaixão, antes de sair, profetizei com fé, dizendo a ela:

   - Jesus há de te recompensar comadre... Jesus há de te recompensar!

A fusão dos ritmos

O papo é sobre música popular brasileira. Não me refiro a Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, Ana Carolina, Maria Gadú, etc. Tô falando do que é "popular", que está na boca do povo, martelando o nosso juízo: Gustavo Lima, Michel Teló, Aviões do Forró, Sorriso Maroto, Calypso, Parangolé... Essas coisas.

Tenho percebido a ocorrência de um fenômeno nas músicas populares do Brasil: estão virando uma coisa só. E esta fusão se dá em três aspectos. O ritmo está evoluindo para o "batidão universal", de percussão marcante. As letras falam das baladas, mulheres, bebidas, farras, etc. E a dança é aquele reboladozinho unissex, de sugestão erótica, que você conhece.

Para isso, neste nosso país heterogêneo, as diferentes culturas musicais tradicionais tiveram que sofrer, imperiosamente, modificações e adaptações. O sertanejo de raiz, do Brasil central, tornou-se universitário. O forro nordestino, virou eletrônico e também universitário. A música afro e o samba de roda da Bahia se juntaram para fazer a denominada swingueira (essa eu curto mesmo). O samba do sudeste deu uma mudada para o formato daquelas bandas de pagode. Os ritmos do norte também seguiram as novas tendências.

Tentando comprovar minha argumentação, selecionei alguns vídeos de bandas de estilos diferentes, para você vê se não parece a mesma coisa... Se doer, assista somente o primeiro minuto e dê sua opinião:




Artista por um dia...

Saindo de um lava-jato na hora do almoço, passo por um self-service com música ao vivo, tocando "bicho de sete cabeças" instrumental. Apaixonado que sou pela melodia, decidi parar e prestigiar o arranjo de perto. Canta uma, canta duas... Percebendo minha atenção, o músico pergunta se eu toco e me convida para dividir os trabalhos...

Eu juro que impus resistência. Eu juro. Mas, de um tempo pra cá, venho me tornando um "sem vergonha", no mais literal e inocente sentido da expressão. Isso porque, tenho avaliado, em cada situação, se devo ou não permitir que a timidez, o medo ou a vergonha determinem meu comportamento. Mesmo consciente de que se tratara de uma proposta no mínimo incomum, topei o desafio.

Expliquei ao cara que só canto no banheiro e toco razoavelmente (por sorte não disse "só toco no banheiro", já que induziria a um constrangedor e inoportuno duplo sentido, que em nada ajudaria naquele momento). Em resumo, cantei três músicas e na terceira ele ainda me entregou o violão... Foi uma experiência nova, apesar de já ter cantado na igreja, há vários anos.

Ninguém prestou atenção no paraíba, só no feijão carioca e sua banda, que exerciam poderosa sedução ao meio dia. Parecia não haver qualquer ruído, o que só serviu para me deixar ainda mais desinibido. Ouvia com nitidez minha desafinação a toda altura na caixa de som, como também os acordes mal posicionados nas cordas... Mas sabe de uma coisa? Quiz agradar mais a mim mesmo do que às pessoas... Como não sou profissional, posso me dar esse luxo. O prazer maior não estava em fazer bonito, mas simplesmente em fazer. Poder me expressar livre e publicamente, com a leveza da canção...

Deixo um recado: se algo prazeroso não vai causar mal a ninguém (nem a você mesmo) porque não fazê-lo? Posso dizer que não me arrependi.

Para morrer de rir!

Às vezes, quando eu estou com saudade daquela gargalhada, procuro alguma coisa para me alegrar um pouco, nem que seja uma pegadinha da TV... Foi o que fiz recentemente. Perdi a compostura e fiquei com dor no abdome... Preciso compartilhar dois, que bombaram recentemente nas mídias sociais, para te alegrar um pouco também, caso você precise:


Falando de sexo, data máxima vênia...

Impressionado com o excesso descomunal de formalismo, no vocabulário utilizado pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal, num "descontraído" lanchinho (com empadinhas e outras coisas), publicado na Veja desta semana, fiquei imaginando como seria, por exemplo, o linguajar dos eminentes juristas fazendo sexo. Com suas respectivas esposas, é claro:

    - Boa noite, querida cônjuge!

  - Nutrindo grandiosa expectativa libidinosa, relativamente ao nosso periódico e satisfatório ato de conjunção carnal, fruto do mais sublime e verdadeiro sentimento afetivo que nos une em vínculo matrimonial, e com fulcro nos consagrados direitos fundamentais de liberdade e vida privada, previstos expressamente na nossa Carta Magna, declaro aberta esta sessão conjugal, seguindo o Rito Ordinário do Acasalamento.

  - Antes de penetrar o mérito, solicitaria, respeitosamente, que a minha dama promovesse, como de costume, os atos necessários à concretização do meu efetivo envolvimento subjetivo, mediante abraços calorosos e ósculos voluptuosos, correspondentes ao que a doutrina correlata denomina de "preliminares".

  - Agora, com os níveis de testosterona decolando sobremaneira no interior de meus vasos sanguíneos, e sentindo fortemente os impactantes efeitos hormonais e psíquicos decorrentes desta instintiva alteração fisiológica, sugiro a Vossa Senhoria que, ratificando meu entendimento e utilizando da mais persuasiva sensualidade e ousadia que lhe é peculiar, possa, paulatinamente, descortinar-se de sua atraente vestimenta, a fim de que me permita apreciar, a olho nu, em termos gramaticais, o "núcleo do sujeito", elevando, inevitavelmente, ainda mais, os picos de minha pressão arterial.

  - Data máxima vênia, a forma como a qual a magnífica princesa encontra-se posicionada sobre esta cama já foi parcialmente indeferida em encontros pretéritos, tudo sob o mais absoluto segredo de justiça, por razões óbvias. Urge, portanto, que a madame promova uma rotação de 180 graus sob o eixo longitudinal de seu próprio corpo, fazendo com que o volume do seu avantajado derrière, vulgarmente conhecido como "bumbum", saia da clandestinidade. Reitero que há jurisprudência nesse sentido.

  - Ordem, por favor! Rogo pelo silêncio nos recintos desta Casa, apesar da pressão proveniente das repetidas investidas do meu martelo no tabuleiro de seu gabinete. Manifesto ainda o desejo de que seja introduzido nos anais desta fálica audiência, todo o material a mim apensado, sem que fique de fora qualquer conteúdo. Por menor que seja...

  - Atingido o clímax de nossa admoestação, ocasião na qual expeli a líquida e certa sentença resolutória, com a clareza característica, propulsionada por umbilical energia e rigidez da dura lex sed lex, convicto da satisfação e gozo do direito de ambas as partes, agradeço pelos expedientes desenvolvidos com maestria por minha amada Excelência e declaro encerrados os trabalhos desta lânguida reunião.

  - É como voto.

Dos 15 aos 30...

Passados trinta anos, posso dizer que muita coisa mudou. Acompanhe meu relato:

Aos 15, fui à dermatologista cuidar das caspas. Fiz a queixa. Ela observou, recomendou um shampoo, foi com uma lupa no meu rosto e disse:
   - Compre esse remédio para combater as espinhas... [o quê?]

Não queria tirar minhas espinhas, apenas as caspas. Não me incomodava com elas. As espinhas são algo muito pessoal para um adolescente, como a calvície é para o idoso... Acho que ela deveria ter perguntado, antes, se eu queria fazer o tratamento. A final de contas, não eram tantas assim... Resultado: fiquei aborrecido e não tratei, nem as caspas, nem as espinhas.

Aos 30, fui ao dermatologista cuidar das caspas. Fiz a queixa. Ele observou, foi com uma lupa na minha cabeça, recomendou um shampoo, e disse:
   - Compre esse remédio para combater a calvície... [o quê?]

Falou com a simplicidade de quem prescreve um medicamento para espinha, sem se dar conta do impacto que isto representa para um trintão (disfarçado de vinte) como eu. Um verdadeiro rito de passagem, para o qual eu não estava nem um pouco preparado. Lembrei-me dos meus quinze anos e das minhas espinhas...
...
Mas, desta vez, pensando bem... Acho que vou cuidar da calvície...

Viu a ligeireza?

Essa história não é piada. O caro José Humberto testemunhou quando trabalhava no banco. Tem vez que é melhor calar-se humildemente e suportar as consequências... Aprenda.

A funcionária dava seu expediente diário, sentada diante da mesa de trabalho, quando de repente escorrega da cadeira. Cai desconcertada com as costas pra baixo e as pernas pra cima, arreganhada (na posição "sapo-virado"). Vestia saia.

Encabulada, levanta-se rapidamente, na vã tentativa de livrar-se do constrangimento. Recompõe-se. Olha de lado desconfiada, analisando a reação dos vizinhos.

O pós-tragédia é delicado. Ela deveria sabiamente continuar o serviço, iludindo-se de que nada demais ocorrera. No entanto quis tirar a prova dos nove, de cuja conta já estava certa do resultado.

Assim, contrariando as recomendações e correndo grande risco, olhou pro colega da frente e disse:

   - Viu a ligeireza?

O sem-vergonha responde categoricamente:

   - Vi. Só não sabia que tinha esse nome...

Novagina

Alguns fatos curiosos da minha infância ficaram gravados na memória, como qualquer pessoa. Lembro do quarto da minha mãe, que mais parecia uma farmácia: era remédio por todo lado, em todo canto. Em cima dos móveis, armários, dentro de gavetas, sapatos, no chão... Muitos já vencidos, que se eternizavam e acumulavam, esquecidos ali... Eram aquelas amostras grátis, que os médicos recebem dos laboratórios.

Mas o principal local de armazenamento era a banheira, que funcionava como uma grande caixa de remédios, cheio caixinhas dentro, com os mais variados nomes e cores. E a borda, obviamente, servia de cabide para algumas ou muitas peças de roupas. É para o que melhor serve mesmo.

Com relação aos nomes dos produtos, eu brincava com eles. Quando estava desocupado, me divertia com os "palavrões" mais esdrúxulos e bizarros da minha vida, catando os medicamentos. Ainda aprendendo a ler, me desafiava, tentando, muitas vezes sem sucesso, soletrar aqueles textos difíceis. Um pouco mais crescido, gostava de memorizá-los e tentar supor, pela pronúncia, para que eles serviam...

Foi nesta fase de adivinhação e sabedoria, que eu descobri a utilidade da "Novalgina". Essa foi fácil, porque minha mãe era ginecologista e eu já entendia das coisas. Se tá velha, vai ficar nova! Me achava realmente esperto.

Anos depois,  a decepção. Soube por acaso, pelo meu irmão, que "Novalgina" não tem nada a ver com a "valgina". É apenas um remédio pra dor (e febre).

Que incoerência...