Mostrando postagens com marcador Especial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Especial. Mostrar todas as postagens

Até com as pedras

Não poderia um animal amar. Pensar, ter sentimentos altruístas, possuir subjetividade... Aliás, somente o homem, porque "o homem é um animal racional". Portanto todos os outros, todos os outros seres viventes são irracionais, não passam de um adereço, um fantoche movido fisiologicamente pelos instintos... Na linguagem de hoje, um zumbi. Ou um automóvel, que, engatada a marcha ré, não tem como andar pra frente... Foi isso que a escola me ensinou: esse racionalismo limitado, essa ciência egocêntrica e petulante.

Amar um animal seria então ridículo! Coisa de gente limitada e carente, quase irracional, que quer se nivelar por baixo... Como me parecia ridículo chamar animais de filhos... Isso sinalizava para mim uma psicopatologia meio grave. Amor é troca, e não haveria troca sincera com um animal. Animal não tem sinceridade, não tem autonomia, mas instintos e condicionamentos. Condicionamentos condicionados pelo homem. O animal não se alegra simplesmente porque você chegou, mas porque vai receber comida. Esqueceu que, quando você chega, sempre dá comida? Tudo me parecia racionalmente bem explicado.

E, racionalmente, precisávamos de alguma coisa. Uma coisa para nos fazer companhia. Para fazer barulho quando estivéssemos sozinhos. Alguma coisa que nos desse responsabilidades, compromissos, algo que nos treinasse para alguém, que seria o futuro filho. Pois bem, compramos uma coisa, um shih tzu, e recebemos um amor... Amor gratuito... Como sou grato, quando a vida me desconstrói, para reconstruir de novo, modificado e melhor.

Já se foi um ano de vivo amor e dez meses de convivência... Amor maravilhosamente ridículo. Amor indescritivelmente recíproco. Amor mais sincero do que com a maioria dos homens. Amor inteligente e tolo, eufórico e preguiçoso, rebelde e obediente, alegre e triste, porque ele chora. De desgosto, de tédio, de bronca, de chuveiro... Às vezes eu engano ele, mas nem sempre. Ele me vence também. Ele é Eros e ele é alguém. Purinho. Todinho.

Nunca o bati, como minha mãe nunca me bateu. Choro em pensar que um dia não estará mais comigo (do jeito que a gente faz quando pensa no filho). E ainda assim choraria, pelo mesmo motivo, se ele vivesse duzentos anos... Acho que estou quase pronto para o segundo filho...

Amá-lo é humano; ser amado por ele é divino, porque o amor é verdadeiro até com as pedras, acredite. Até com as pedras...

E, sabe de uma coisa? Hoje ele vai comer leite moça.

A Capela de Santa Zita

Hoje me aconteceu um episódio marcante. Voltei à mini capela de Santa Zita, para uma missa em memória do pai de uma amiga. Tudo lá é pequeno. Até a desconhecida santa foi empregada doméstica, tornando o lugar ainda mais simples e, exatamente por isso, ainda mais grandioso. Para mim, aquele lugar é mágico. Até as pessoas - acredite - parece que vão com roupa de casa... Acho que essas coisas me ajudam a experimentar algo divino naquele lugar. Mas não só por isso.

Lá, pela primeira vez, fechei os olhos para rezar com vontade. Lá, pela primeira vez, me dirigi a Deus com uma sinceridade assustadora. Lá, pela primeira vez, tive medo de ser amado. Lá, pela primeira vez, chorei desconfiando de que Deus pudesse existir. Lá, pela primeira vez, a minha vida fez algum sentido. Lá, me pertenci cristão e me batizei aos 18 anos.

Olhei as colunas... Olhei o concreto... Olhei as cadeiras... Olhei as pessoas... Fazia dez anos, mas tudo me parecia familiar... Mesmo assim fiquei discreto, meio tímido, acoado. Não porque estivesse amedrontado, mas talvez porque estivesse concentrado em absorver tudo de novo... Sempre achei que o espírito das empregadas domésticas estava naquele lugar... e continuava estando. Parece que quando a gente se sente mais humano, é quando se sente mais divino. Essa retórica é bonita. Enquanto apenas retórica, é apenas bonita. No entanto, desfrutar desta simples realidade é diferente, não dá pra explicar, a retórica até ofende...

Me aguentei até quase o final, mas não resisti. Cumprimentei uma velha aleijada cadeirante, mal vestida; entusiasmada e sorridente. Cumprimentei outra velha doente, de bengala; e em paz. Abracei a freira. Nunca nos vimos, mas já nos conhecíamos. Quase fraca, quase surda, quase morta; quase divina. Sorrimos e choramos. Amei. Contemplei uma bebê quase dormindo e quase tudo ali me deixou feliz. Exceto algumas lembranças que a gente deixa esquecer...

Sei não... talvez Deus exista sim... Sei não...

Heraldo

Heraldo pra cá, Heraldo pra lá... Heraldo era um personagem frequente nas narrações do meu pai. Expressava admiração... Curioso foi saber recentemente que ele trabalha comigo, no andar de cima e desde sempre.

Apareci anunciando o parentesco, enchendo de saudade os olhos de um grande amigo... Conversamos e conversamos muito, recontando a história, que, desde os tempos de escola até o primeiro emprego, se confundiam.

Os jovens paraibanos aventureiros, recém diplomados, se dispuseram a desbravar o país, com todo o idealismo, oferecendo suas técnicas na construção da lendária Rodovia Transamazônica - como um recruta que vai para a guerra com patriótico e inconsequente entusiasmo. Mas o destino os desembarcou antes, em Teresina...

Estudaram juntos e juntos prestaram vestibular. Juntos cursaram a mesma faculdade e juntos também passaram no mesmo concurso: Heraldo em primeiro, meu pai em segundo. Por vários anos estiveram assim, lado a lado, numa parceria verdadeira de jovens e amigos. Descobriram a vida, cobriram as mulheres, foram felizes...

Mas as parcerias se desfazem quase sempre, não é mesmo? Os divórcios superam os casamentos nesse nosso mundo tão civilizado e evoluído, quanto confuso e contraditório... Sem olhar para trás, meu pai continuou sua aventura nas curvas da vida, por direções difíceis de explicar, em sentidos quase que opostos...

Percebo um certo lamento, um questionamento sobre a separação... Penso que este discreto sofrimento, esta carinhosa dúvida, seja de todos nós, inclusive do meu pai... Não sei se devo pedir desculpas...

Na memória, persistem as lembranças, que não servem apenas para ser lembradas, mas sentidas, e sentidas como se fossem hoje...

Talento


Permitam-me puxar o saco da família (todos têm esse direito). Não faltam histórias para atestar a elevada capacidade intelectual do meu irmão Vinícius, colocando-o sobre as maiores médias. Das várias narrativas que me chegam de vez em quando, uma escapou ao ordinário.

Terceiro ano do ensino médio e a ansiedade preocupava naturalmente os vestibulandos da turma. Os novos conteúdos ministrados pelos professores, de difícil compreensão, só piorava a situação. Meu irmão, com seu jeito atento e distraído ao mesmo tempo, depois de ocupar a aula descontraindo com os colegas, divertia-se de vez em quando no quadro-negro, na hora do intervalo, explicando os assuntos ao seu modo: certamente de forma fácil e direta, com linguagem acessível, disfarçando o rigor complicado do método científico, ao qual os professores deviam obediência...

O evento caiu nas graças do povo, atraindo mais pessoas e repetindo-se com maior frequência. Seu talento, que misturava genialidade e simplicidade, enchia de gratidão e admiração o espírito dos alunos que aprendiam com ele. Quando perguntavam como poderia saber tudo aquilo, já que havia conversado a aula inteira, respondia humildemente: "eu estudo muito em casa".

A confiança nele crescera tanto, que alguns desistiram de certos professores, contando com o seu socorro na hora do lanche. A coisa tomou maiores proporções, fazendo com que, espontaneamente a turma providenciasse um abaixo-assinado, requerendo-o como professor regular... A direção ficou numa situação constrangedora, sendo obrigada a responder o óbvio: que ele não poderia atuar como professor, porque não era formado - afinal de contas, possuía apenas o ensino médio incompleto...

De fato, durante a minha infância, também explorei seus conhecimentos. Gostava de ensinar de tudo, o danado, até os afazeres mais elementares... Observava muito, refletia bastante e chegava a conclusões próprias, sempre convincentes. Lamento ter abandonado sua vocação, com a faculdade e o trabalho. Mas, não sei não, acho que ainda dá tempo de investir na carreira...

êuaC atsoC ad ataM

Posso dizer que tive um amigo. Desses inesquecíveis. Aprendemos a ler juntos e, desde então, me hospedava em sua casa, conhecendo e me aproximando também da família. A irmã mais velha gostava de me ouvir assobiar “Patience”, dos Guns and Roses - eu contava oito anos, me enchia de vergonha, mas obedecia sob pressão... Havia um pastor alemão, robusto e bem nutrido. Recordo perfeitamente dele correndo atrás de mim (certamente para brincar) e eu apavorado, arrodeando o centro da sala, fugindo desesperadamente e divertindo a casa... Bons medos... Família numerosa, que sempre me acolheu com impressionante filial e fraternal respeito. A escada para os quartos me deixava ofegante.

Praticamos esporte juntos durante o colegial e seu pai nos deu aulas particulares de matemática, para o vestibular... A inteligência vinha de família. Nem a faculdade nos distanciou. Quando tudo estava monótono, éramos presenteados com a agradável surpresa da sua visita, contando suas aventuras e divertindo a casa... Contava uma história como ninguém. Ele mesmo era o protagonista dos seus enredos sempre bem humorados e otimistas, com uma particular pitada de criatividade. Peço que me empreste um pouco do seu talento, para nunca me faltar boas ideias e boas narrativas. Para que consiga fazer os outros sorrir também...

Enquanto militei na igreja católica, ele militou na política estudantil. Mantivemos uma certa reserva neste período, mas nunca nos afastamos. Percebi que a nossa dedicação era grande e semelhante, ideológica. Amigos: o que mais tinha. Impossível contabilizar. Acho que foi a coisa que mais valorizou na vida - nutria uma fidelidade admirável... Aprendeu logo cedo o que vale a pena. Seu coração era grande, ardente e sensível, e conservara uma pureza da infância, que não sei explicar. Era intenso. Beijava o irmão mais novo enlouquecidamente. E como explicou seu pai: “foi para uma viagem que não estava combinada”.

Ainda criança, já nos conhecíamos bastante, mas não o bastante. Faltava, como se diz por aí, conhecermo-nos “de trás pra frente”. Assim, brincávamos de soletrar nossos nomes completos no sentido inverso, para mais nunca esquecer. Pensava, com orgulho, que ninguém o conhecia como eu. Cauê era popular, “êuaC”, particular. Funcionava como um segredo entre nós. Uma senha de amizade. Um cadeado neste eterno coração de estudante... Só me amedrontava quando pronunciávamos o meu Dantas. Remetia a “satanás”! Suspeitava intimamente de que eu pudesse ser uma encomenda do diabo, principalmente porque não rezava antes de dormir...

lições de pai, lições de vida...

Essa história dá um filme:

Logo quando meu pai se separou, comprou um Monza, com vidro elétrico e ar condicionado. Naquele tempo, isso era "a cara da riqueza". Fiquei muito surpreso e confuso, porque, até então, só o via dirigindo uma F-1000 velha e uma Kombi caída aos pedaços. Pois é: vida nova, carro novo! Decidi não questionar a aquisição, que veio somente depois que não mais morava com a gente... Preferi desfrutar sem ressentimentos.

Eufórico na minha primeira viagem de luxo, segurei a emoção, como se aquilo fosse comum para mim. Ou melhor, segurei até certo ponto, porque, nas mediações do Grupamento de Engenharia, na Av. Epitácio Pessoa, não aguentei e falei:

   - Painho, o Monza é bom demais, né?

Eu já sabia o que iria me dizer: que isto era fruto do seu trabalho, e que um dia eu também poderia conquistar tudo isso e muito mais, desde que eu também me dedicasse aos estudos, para conseguir um bom emprego, etc. Passaria a mão na minha cabeça e eu seguiria feliz...

Nada disso. Imediatamente me olhou com uma cara educada de estranhamento e respondeu sem demora:

   - Mas isso não vale nada, meu filho. A gente precisa estar preparado para andar de carro ou de ônibus...

Fiquei intimamente frustrado e um pouco aborrecido. Queria um incentivo naquele momento. Ele foi "politicamente correto" (um sinônimo que arranjamos para "falsidade"). No entanto,  confesso que achei admirável a reflexão. Pensei um pouco e finalizei:

   - É mesmo, né, painho?

Você já sabe que o mundo dá voltas e que a vida é uma montanha russa. Em dez anos tudo muda completamente: colecionou outras separações e fracasso nos negócios... Retorna, falido, para a casa da minha avó, como quando criança...

Mais adiante me encontro numa parada de ônibus esperando o saudoso "511 Tambaú", na Av. Epitácio Pessoa, nas mediações do Grupamento de Engenharia. Eu e meu pai.

De repente, o flashback da conversa do carro, que eu já havia esquecido... Certamente, ele estava muito preocupado com muitas coisas. Disfarçadamente desesperado, talvez. Mas não parecia envergonhado ou constrangido em pegar busu. Sentia-me mais desconsertado do que ele, que até se divertia com isto.

Contei a história, mas ele não lembrou, mesmo assim.

Confirmei, naquela hora, que meu pai fora sincero, lá atrás, na vida de príncipe...

Disse isso a ele, e disse com orgulho.

Ai que saudade me dá!

Sempre ouvi dizer que meu pai colecionou muitos amigos durante a sua vida. Vejo pessoas, que nem conheço, dizerem isso, fazendo o filho se sentir modestamente orgulhoso. Sou suspeito pra falar, mas realmente ele tinha uma conversa demasiadamente agradável. Um homem simples, que, por princípio e personalidade, não fazia distinção de pessoas. Em seu trabalho na área educacional, certamente fez amigos e deixou saudades...

Escrevo esta postagem, porque fui surpreendido, há poucos dias, pela publicação de uma foto do meu pai no jornal Correio da Paraíba, na página do colunista Anchieta Maia, acompanhada da descrição "Ai que saudade me dá". Me surpreende, depois de tantos anos afastado deste ambiente, e sem uma razão aparente, ele ser lembrado desta forma.

Deixo aqui o sincero agradecimento de toda a família ao colunista Anchieta Maia e sua equipe, pela pública homenagem, também com o coração cheio de saudades e boas lembranças... Ao meu pai, ofereço o que há de melhor em mim. E que Deus o tenha em bom lugar...


Porque ele vive

Hoje faz um ano da morte do meu pai. Parece menos. Dizem que as pessoas não morrem, mas permanecem vivas nas lembranças dos que ainda estão nesse mundo... Acredito mesmo nisso. Como dizer que pessoas como Sócrates, Gandhi, Francisco de Assis, Buda, o próprio Jesus, e tantos outros que você recorde, não estejam vivos? Estão vivos e muito vivos (mais do que eu e você)! Suas lições e ensinamentos continuam modificando (para melhor) a vida das pessoas mundo à fora. Neste sentido são eternos...

Para mim, meu pai continua vivo. O que recebi dele durante os anos de convivência, o que ouvi dele nas prazerosas e entusiasmantes conversas, seus discursos (gostava de discursar), suas reflexões, suas idéias (sua ideologia), seu imenso amor pela vida, sua esperança contagiante, sua fé amadurecida, são coisas das quais jamais esquecerei... Tudo isso continua vivo (e muito vivo) dentro de mim, o que inevitavelmente continuo a repassar, natural e subliminarmente para aqueles de minha convivência... Tenho certeza que muitas pessoas também carregam em si algo do meu pai.

Deixem eu contar uma história que me comove.

Na missa de 7º dia, uma pessoa querida avistou o meu pai de pé, vestindo uma roupa simples (como era de costume), em uma das entradas da igreja, sorrindo e observando as pessoas se confraternizarem. Quem viu é católico e não acredita nessas coisas. Contou-me dizendo que os olhos lhe "pregaram uma peça", mas que viu, viu. Se ele estava espiritualmente ali, naquele momento (coisa que eu acredito), nunca saberemos ao certo. Mas isso não é o mais importante. O importante é que ele vive!

Pra terminar, deixo uma poesia feita pelo meu pai:

desejos consciência

De coisas eternas, queria ser.
Bondade, infantil bondade, queria ter.

Da pura verdade, queria viver.
Sabedoria, humilde sabedoria, queria ter.

Dos desejos mil, tanto evitei possuir.
Simplicidade, tudo simplicidade, queria ser.

Das paixões humanas, humanas paixões eu vivi.
Quis amar, fiz sorrir, fiz sofrer.

Efêmero, consciente estou.
De alma eterna, viajante sou.

jdantasdiniz.jr
maio/2006

15 de janeiro

15 de janeiro... Este dia nunca será comum para mim. Era o aniversário do meu pai... O próprio som da pronúncia desta data ou o desenho da sua escrita já causa alguma coisa por dentro... Era especial. Mesmo sem eu fazer festa quando desejava-lhe o tradicional "Feliz Aniversário", meio desconcertado.

Antes de ele partir (mas já doente), escrevi uma coisa meio poema, meio prosa, intitulado "Eu também tenho um pai" (postei até no blog). É que meu pai havia escrito um texto chamado "Eu tenho um pai", sobre o meu avô. Aí tive a idéia de fazer o meu para ele. Painho até comentou no meu blog, na época, lembrança que guardarei para toda a vida (confiram se quiser).

No dia de hoje vou contar sobre uma iniciativa que ele teve, já aposentado por conta da doença (câncer de próstata). Era certamente uma forma de preencher o seu tempo e sua mente, o que poderia fazê-lo de várias outras formas, mas escolheu essa, porque era um educador-professor nato.

Residia à época num sítio em Gurugi, zona rural do município do Conde/PB. Área pobre e quilombola. Teve a idéia de dar aulas de Física e Matemática aos sábados, voluntariamente, para aqueles jovens do ensino médio que se preparavam para o vestibular. Não havia sala, nem carteiras, nem cadernos, nem lápis..., mas conseguiu tudo isso mobilizando a comunidade, dialogando com o sindicato e a prefeitura, e ainda contando com a colaboração de instituições como a Maçonaria (apesar de não ser maçom).

Gostaria de ter assistido a pelo menos uma dessas aulas, mas ele me narrou como foi a primeira, mais ou menos assim:

Alunos presentes e ele desenha no quadro-negro o mapa da Paraíba. Com o giz, marca dois pontos, um bem ao interior e outro no litoral, e os alunos olhando... quando ele começa a explicar.

   - Estão vendo esse ponto aqui? É o Quilombo das Contendas, onde minha mãe nasceu. E este outro é o Quilombo de Gurugi, onde vocês nasceram. Os pais da minha mãe eram analfabetos, igual aos pais de vocês. Mas quando minha mãe tinha nove anos, uma pessoa da família retirou ela de lá, para poder estudar, e aos 14 anos ela volta como professora na cidade. Ela descobriu logo cedo a importância da educação, que livrou ela da miséria. Foi a única da família que teve estudo e a única a formar todos os sete filhos.

   - Vocês estão tendo a oportunidade de escrever uma nova história na família. Os seus pais não tiveram essa oportunidade. É você quem vai dizer se quer continuar vivendo como os seus pais, passando necessidade, ou se vai querer fazer uma história diferente, como fez a minha mãe. O estudo é o que pode melhorar a vida de vocês e da sua comunidade...

Falava coisas assim. Encorajando aqueles meninos... Mesclava os conteúdos com esses discursos... Era assim que ele fazia. Era assim que ele ensinava.

Dia da sogra

Hoje é o dia da sogra. Apesar de ser comemorado em 28 de abril (por aqueles que têm razões para comemorar), para mim, este é o dia, porque hoje quero falar dela. Não sou muito vinculado a datas comemorativas...

Por sorte, tenho, não somente uma esposa maravilhosa, mas uma sogra admirável. Talvez "sorte" não seja a palavra certa, muito menos merecimento. A culpa é de Jesus - não tenho nada haver com isso (nem quero nutrir inveja de ninguém).

Sou de admirar as pessoas. Como se não bastasse a sua generosidade sem limites e o seu intelecto muito bem trabalhado e eclético, há algo diferente que às vezes percebo e me deixa reflexivo... A dimensão espiritual, alguma coisa metafísica, que não sei explicar.
A nobreza do silêncio, os sentimentos contidos, a sensibilidade apurada, a preocupação maternal... A paz... As convicções íntimas, encravadas... A fé...

Sabemos muito pouco de quase nada. A humildade é o caminho, o resto é vaidade.

Aos que têm sogras-problema, desejo (de coração) paciência e sabedoria.
Aos que têm sogras-solução, não desejo nada; você já foi abençoado.

Marca impressionante

À passos de tartaruga, este blog atingiu a impressionante marca de mil visualizações, das quais umas oitocentas foram minhas (não conta pra ninguém), outras cem foram da minha esposa (obrigado, meu amor, por ouvir os meus apelos), e o restante (e mais surpreendente) com a participação de vocês, ao longo de mais de dois anos e meio de existência deste "diário virtual".

Um dos motivos de eu criar este espaço foi a oportunidade de poder dizer o que penso publicamente, e me posicionar diante dos fatos e dos dilemas da vida, por mais que posteriormente eu possa mudar de idéia, o que certamente não me envergonhará - "prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela venha opinião formada sobre tudo". Se isto ocorrer, o revelarei prontamente, com alegria e racionalidade, neste mesmo batcanal.



Iniciarei, no promissor ano de 2012 (para todos nós), uma série de postagens intituladas "Eu tiro o chapéu", através das quais lançarei juízo de valor sobre vários assuntos (um tanto quanto polêmicos), na esperança de provocá-los de alguma forma - positivo ou negativamente.



Desejo construir valores importantes, dialogar problemas e exercitar a cidadania, o que para tal será indispensável a sua participação através de comentários, ratificando ou, especialmente, contestando minhas opiniões, o que certamente receberei com atenção e dedicação - só deixe minha mãe fora disso.



Mas não falarei apenas de coisas sérias, às vezes umas palhaçadas, às vezes umas bobagens...




No mais,



Muito obrigado!



O espaço é seu e sinta-se à vontade!

EU TAMBÉM TENHO UM PAI

Tenho um pai que vive a vida no seu tempo.
Na infância, foi criança como pôde,
Nos tempos da imaturidade, foi imaturo,
Na juventude foi enérgico como um jovem autêntico e ideológico,
E hoje, na maturidade, mostra-se maduro, aprendendo com a vida.

Meu pai é um homem de poucos erros e muita bondade,
O mal que fez foi sem má fé, por engano ou fraqueza, talvez.
No entanto, na vida não há justa causa,
E por isso recebeu o peso de suas decisões precipitadas, ou infelizes, talvez...
Decisões próprias da vida...

Meu pai é um homem das letras, da razão,
E na maturidade, um homem de fé.
As reflexões sempre fizeram parte de sua vida,
Uma lúcida compreensão da realidade nos mostra,
E, também com o uso da razão, matutando alcançou o mistério,
O mistério da espiritualidade, da paz.

Hoje, vive feliz, na visão, na reflexão, no viver.
Na vida a dois procura amadurecer,
Não se cansa de aprender, não se cansa de aprender.

Por tudo isso és o meu maior professor,
Que me ensinou com a vida e me ensina com as palavras.
Nos erros, um bom exemplo a se afastar,
Nos acertos, muitos acertos, desafios a alcançar,
De solidariedade, desapego material, de luta por direitos.

És meu pai, és meu mestre,
Por isso te amo.

E este é o maior legado:
Aprender com a vida.

     “E se um dia a dor lhe abraçar,

      Seja forte,

      Seja luz,

      Nada mais.”

Ave de arribação, com certeza é o que sou,
Ave de arribação, com certeza é o que és.

Amar é saber cuidar

Amar é saber cuidar
Fazer feliz o ser amado
É poupar quem você ama
Evitar ser machucado

É uma arte complicada
Para os que são imaturos
Os que são inconsequentes
E não pensam no futuro

É preciso descobrir
Que não estamos só no mundo
Que o outro também sente
Que seu coração não mente
Quando dói bem lá no fundo

Temos que sair de si
E pensar no ser amado
Colocar-se em seu lugar
E agir pra conservar
Quem se ama apaixonado

Conquistar a cada dia
Mostrar sempre o amor que sente
Que a chama ainda é acesa
Não perder a gentileza
Ser às vezes paciente

Só se aprende a amar alguém
Praticando dia a dia
Sempre com seriedade
Refletindo de verdade
O que fez e o que faria

Temos sempre que aprender
Melhorar a relação
E dos erros cometidos
Tirar sempre uma lição

Não perder a alegria
Não perder a emoção
Saber dar boas risadas
E ter sempre umas piadas
Pra qualquer ocasião

Cultivar o amor ardente
Não deixar morrer a chama
O desejo por quem ama
Deve sempre estar presente

É cuidar do ser amado
Proteger c'unhas e dentes
Aprender com o bom soldado
Destemido e bem armado
Vigiar os "inocentes"

E pros homens que ainda amam
Uma mulher ou uma menina
É preciso mergulhar
Não temer nem se afogar
Dentro d'alma feminina