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Cidade vazia

A cidade está vazia
Nenhuma inspiração pra minha poesia

Corpos presentes
Mentes doentes
Almas sem alegria

A cidade está vazia
Nenhuma inspiração pra minha poesia

Olhares abaixo
Só mais um capaxo
Desta desarmonia

A cidade está vazia
Nenhuma inspiração pra minha poesia
Povo sintético
Nem mais o boteco
Me traz alegrias

A cidade está vazia
Nenhuma inspiração pra minha poesia

Cadê o verde?
Só vejo parede
Isso dá agonia

A cidade está vazia
Nenhuma inspiração pra minha poesia

Não vejo a Princesa
De rara beleza
Desfilar Poesia

(Sra. Mari Ghella Rego).

Uma aula de perseverança

Este texto é uma colaboração do meu amigo Luís Henrique,
que, generosamente, enriquece este espaço
com o seu talento e suas reflexões.


Por que ficar confinado em uma sala de aula convencional, entediante e sem graça, se um espaço imenso, ao ar livre e com visão privilegiada da cidade e das montanhas que a limitam, nos espera? Foi esse o cenário escolhido pela professora e crianças da foto acima para exercitarem o que os especialistas pomposamente chamam de processo ensino-aprendizagem, embora persistam em mim sérias dúvidas quanto à motivação poética da escolha.

Alguns mais cautelosos poderiam indagar se os protagonistas da cena protegeram-se devidamente dos raios solares com o protetor adequado, tipo FPS 30 ou superior. Outros podem apontar o desconforto dos assentos ou até mesmo o calor que pode debilitar a saúde daquelas crianças sob um sol causticante.

É razoável questionar se não deveria haver um bebedouro com água geladinha, que cairia bem com esse calor. Igualmente, nenhum sinal de merenda escolar percebo. Nem preocupadas mães, em seus SUV modernos e importados, a esperar as crianças. Deve ser por causa do ambiente original e poético da foto. Não combina com essa mesmice.

Pode-se ainda argumentar que nem uma bola de futebol (ainda que tosca e desgastada pelo uso) há para entreter as crianças, que, atentas, postam-se comportadas, dividindo seus olhares e atenção com a professora e um quadro de frágil concepção, precário mesmo, insculpido diretamente na parede da edificação. Penso comigo mesmo que dali dificilmente sairá um Neymar.

Convenhamos, eu não me sentiria confortável ali, por mais bucólica que seja a paisagem que se descortina ao largo. O sol, a areia e o vento me incomodam desde já, mesmo estando aqui, do lado de fora da foto.

Não me recordo de quando criança ter-me submetido tão docilmente a uma situação desta. Mas não sou parâmetro para essa gente. Eles são bem mais nobres que eu, refém do meu comodismo urbano, burguês e dondoca.

Esses legítimos representantes dos povos morenos criados ao sol (resgatando aqui, de forma literal, o mestre Ariano Suassuna), têm no seu endereço genético os anticorpos, as imunidades, que lhes conferem uma resistência ímpar, que os faz ri, quando chorar seria mais óbvio e que vivem, quando sequer se supõe que poderiam aguentar.

Culto do novo

Já chega de velharias!
De maltratar corações
De histórias tristes de guerras
Conflitos, revoluções!
Viva o belo e o novo!
Viva o bom, o positivo!
E por mais que eu me engane.
Sim, por mais que eu me engane
Que se dane o negativo!!!!!

(Um texto do meu querido tio Martinho Medeiros).

Mega-Sena e o quase prêmio

Não jogo e não gosto de jogo. Nunca joguei porque tenho a mais tranquila e serena convicção de que não ganharei. “Fulano ganhou na loteria!”. Nem me incomodo... “Sicrano levou não sei quantos milhões pra casa!”. Não tô nem aí... Beltrano virou milionário do dia pra noite!”. Pouco me importa.

Mas uma coisa mexeu comigo como eu não esperava. São aqueles que quase ganharam. Marcaram as dezenas corretas, enfrentando uma probabilidade de 1 em 50 milhões (nada fácil), mas não registraram o jogo na lotérica! Não ganhar porque não acertou, para mim, é lógico. Mas não ganhar porque esqueceu ou desistiu de registrar a aposta na esquina é perturbador... O quase é que me mata!

Agora, deixo a poeta traduzir o drama do quase com a sensibilidade que não somos capazes de descrever:

O quase
(Sara Westphal)

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Feliz Ano Novo!

Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer indivíduo se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade.

Caçador de mim

Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Composição: Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão
Principal intérprete: Milton Nascimento

Comício em Beco Estreito

Em comemoração às eleições municipais, que estamos vivenciando, apresento o célebre e bem humorado poema do paraibano Jessier Quirino, que descreve com maestria o que acontece em muitas das cidades desta nossa pátria amada, Brasil:

COMÍCIO DE BECO ESTREITO
(Jessier Quirino)

Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

Uma gambiarra véa
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um taró
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão, cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessa por minuto.

Anunciar a chegança
Do corruto ganhador
Pedir o “V” da vitória
Dos dedo dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.

Protegendo o "monossílabo"
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.

Com voz de vento encanado
Com os viva dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar dos roubo dos home
Prometer o fim da fome
E tá ganha a eleição.

E terminada a campanha
Faturada a votação
F#da-se povo, pistom
F#da-se caminhão
Promessa, meta e programa…
É só mergulhar na Brahma
E curtir a posição.

Sendo um cabra despachudo
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:

Ele, um diabo sério, honrado
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.

A poesia do poeta

Quero falar da morte de Ronaldo. Nunca imaginei que um dia o estivesse homenageando. A vida tem dessas surpresas... Se não o fizesse, contudo, seria fingimento, pois a minha subjetividade o reverencia de alguma forma.

Conversava nesses dias com os amigos sobre "rotularmos" uma pessoa por um ou uns atos de sua vida. Chegamos a conclusão que rotular é sempre alienante: se rotulamos bem, escondemos os erros; se rotulamos mal, escondemos as virtudes. Não é justo classificarmos desastroso um longo caminho, uma longa estrada, por uma curva mal feita em seu percurso. Ninguém é Deus e ninguém é o diabo. O alfa e o ômega se misturam em cada um de nós, compondo essa nossa existência contraditória, confusa, misteriosa, surpreendente, mas, sobretudo, apaixonante.

Nunca votei nele, nem em sua descendência, e acho bem provável que isso permaneça. No entanto, quero fazer minha sincera, madura e sóbria homenagem ao grande poeta, guardando para sempre em meus arquivos de postagens, sua célebre petição em verso, chamada:

HABEAS PINHO

Exmo. Sr.
Dr. Artur Moura,
Meritíssimo Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca,

O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola.
É simplesmente, Doutor, um violão!

Um violão, Doutor, que, na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade.
Ao crime ele nunca se mistura.
Inexiste, entre os dois, afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam as mágoas e que povoam a vida,
Sufocando, assim, suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém, seu destino o perpetua:
Ele nasceu para cantar, em plena rua,
E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo, pelo Amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito!
É crime, porventura, o infeliz,
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado,
Derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza, já, do seu acolhimento.
É somente liberdade, o que pedimos
E, nestes temos, vem pedir deferimento!

Assinado:
Ronaldo Cunha Lima, advogado.

"A república dos sem-concurso"

Veja a matéria que foi publicada no jornal de ontem. Tire suas próprias conclusões...

"A cada ano, centenas de milhares de jovens concluem o ensino médio e tentam ingressar no ensino superior a fim de conquistar, pelo seu próprio mérito, um bom posto no mercado de trabalho, seja como empresário, trabalhador da iniciativa privada ou do serviço público. No tocante a esta última possibilidade, está regulamentada pela Constituição Federal - CF, que estabelece a seleção de provas e títulos como única forma de ingresso à condição de servidor efetivo. A opção pelo serviço público é legítima, especialmente em países que optam por um “Estado de Bem-Estar Social”, como aponta nossa carta magna.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea, todavia, como resquício dos terríveis anos neoliberais, a participação do emprego público tornou-se pequena no Brasil. O percentual de servidores entre o total de ocupados não alcança os 11%. O Brasil tem menos servidores que todos os parceiros do Mercosul, Estados Unidos, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Finlândia e Suécia. Para assegurar o pleno direito à saúde, educação, assistência social, dentre outros, nosso País precisa de mais empregos públicos.
 

Na Paraíba, o acesso ao emprego público em geral viola a CF, pois muitos gestores procuram driblá-la e contratam pessoal sob a forma predominante da prestação de serviço (gerando a figura dos “ps”), sob às vistas do Ministério Público Estadual, que anda silente sobre a questão. As irregularidades começam pela Prefeitura de João Pessoa que, entre 2004 e 2011, manteve o quadro de efetivos praticamente estável, embora tenha aumentado o total de ps’s de 2.329 para 9.316 no mesmo período, um crescimento de 300%. Enquanto isso, o gasto com pessoal que representava em 2003, 48,69% da Receita Corrente Líquida, caiu para 34,41% em 2008. Arrocha-se o salário dos trabalhadores, descumpre-se a lei e enche-se o serviço público de cabos eleitorais, ganhando o salário mínimo. Está aí uma das causas da má qualidade dos serviços públicos prestados aos cidadãos da Capital e de outras plagas.

Uma boa iniciativa que tomariam nossos jovens era criar o “Movimento dos Sem Concurso - MSC”, para combater este neoclientelismo e lutar para restaurar a meritocracia como forma de acesso ao emprego público. Quem estudou e investiu numa carreira não pode ficar à mercê da bajulação a políticos para ter acesso ao mercado de trabalho."

Éder Dantas, doutor em educação (não o conheço e não é meu parente).

O Delegado Poeta...

O Delegado Reinaldo Lobo, lá de perto de Brasília, inovou e tem o meu aplauso. Fez o relatório de um inquérito policial em forma de poesia, estilo cordel.

“O nosso trabalho é um pouco de idealismo. Apesar de muito árduo, ele é um pouco de fantasia, de você lutar pela reconstrução e pela melhora do mundo. Acho que isso traz muita realização e eu quis transformar isso em arte, daí a idéia da poesia.”

Resultado: foi pego pela Corregedoria... Ô cabra macho!
Veja a pintura:

Já era quase madrugada
Neste querido Riacho Fundo
Cidade muito amada
Que arranca elogios de todo mundo

O plantão estava tranqüilo
Até que de longe se escuta um zunido
E todos passam a esperar
A chegada da Polícia Militar

Logo surge a viatura
Desce um policial fardado
Que sem nenhuma frescura
Traz preso um sujeito folgado

Procura pela Autoridade
Narra a ele a sua verdade
Que o prendeu sem piedade
Pois sem nenhuma autorização
Pelas ruas ermas todo tranqüilão
Estava em uma motocicleta com restrição

A Autoridade desconfiada
Já iniciou o seu sermão
Mostrou ao preso a papelada
Que a sua ficha era do cão
Ia checar sua situação

O preso pediu desculpa
Disse que não tinha culpa
Pois só estava na garupa

Foi checada a situação
Ele é mesmo sem noção
Estava preso na domiciliar
Não conseguiu mais se explicar
A motocicleta era roubada
A sua boa fé era furada
Se na garupa ou no volante
Sei que fiz esse flagrante
Desse cara petulante
Que no crime não é estreante

Foi lavrado o flagrante
Pelo crime de receptação
Pois só com a polícia atuante
Protegeremos a população

A fiança foi fixada
E claro não foi paga
E enquanto não vier a cutucada
Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada

Já hoje aqui esteve pra testemunhá
A vítima, meu quase chará
Cuja felicidade do seu gargalho
Nos fez compensar todo o trabalho

As diligências foram concluídas
O inquérito me vem pra relatar
Mas como nesta satélite acabamos de chegar
E não trouxemos os modelos pra usar
Resta-nos apenas inovar

Resolvi fazê-lo em poesia
Pois carrego no peito a magia
De quem ama a fantasia
De lutar pela Paz ou contra qualquer covardia

Assim seguimos em mais um plantão
Esperando a próxima situação
De terno, distintivo, pistola e caneta na mão
No cumprimento da fé de nossa missão


Riacho Fundo, 26 de Julho de 2011

Del REINALDO LOBO
63.904-4

Arte é arte e não se discute.


Bienal
(Zeca Baleiro e Zé Ramalho)

Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta

Meu conceito parece, à primeira vista,
Um barrococó figurativo neo-expressionista
Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista
calcado da revalorização da natureza morta

Minha mãe certa vez disse-me um dia,
Vendo minha obra exposta na galeria,
"Meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia
E muito mais feio que um hipopótamo insone"

Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o segundo caderno,
Calcular o produto bruto interno,
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone,
Rodopiando na fúria do ciclone,
Reinvento o céu e o inferno

Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte desmaterializada no presente contexto
Reciclando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana

Com a graça de Deus e Basquiat
Nova York, me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana

Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina

Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria

Crítica irreverente a 23ª Bienal Internacional
de São Paulo (1996), cujo tema era:
“A desmaterialização da arte no final do milênio”.

Fantástico!