A saga do Coronel Zé Vieira

Os cineastas desempregados, sugiro o roteiro de biografia do Coronel Zé Vieira.

Menino diferente, que já nasceu de bigode, o qual, mesmo ainda ralo e transparente, sinalizava sua vocação de autoridade sobre os devotos e valentes sertanejos da Paraíba. Aos nove anos, com o bigode um pouco mais encorpado e escurecido, profetizava do alto da pedra, em frente à igreja, que seria o primeiro prefeito do povoado que, naquele momento, jamais imaginaria constituir-se cidade um dia. E atraía pessoas...

Como todo homem iluminado, alguns o caluniavam de louco, mas ele não era louco, era profeta. Na adolescência e juventude, ensaiou sua voz de comando, primeiro com pessoas mais próximas e depois com desconhecidos, obtendo admirável êxito. Era obstinado por seus objetivos e desenvolvia o espírito de liderança sobre os mais humildes. Mostrou-se desde muito cedo empreendedor, um homem de negócios...

O tempo passou e quis o destino, em meados dos anos 90, sob o comando do Governador Mariz, fundar o município de pouco mais de 5 mil habitantes, batizando-o com o nome desinteressado de "Marizópolis". Aquele homem não era louco, era profeta.

E tudo se cumpriu. Coroou-se rei do alto da pedra e, com um bigode negro e robusto, devidamente aparado pela assessoria, fez desse cajado uma missão pra toda vida. Isto porque, dos cinco mandatos majoritários que coleciona a história do município, o Coronel Zé Vieira - como é conhecido na região - é dono de quatro, sendo forçadamente intercalado no meio, pela eleição de sua sobrinha, por causa de uma previsão constitucional que não tem a mínima graça. Mas, nesses quatro anos, não descuidaria de seu povo: assumiu a principal secretaria da administração pública e continuou a exercer sua liderança quase que da mesma forma, delegando as assinaturas para sua pupila.

Enfrentando com inteligência as dificuldades da gestão de um município escasso de recursos, tem conseguido, ano a ano, a aprovação política das contas na Câmara Municipal, ainda que prévia e reiteradamente reprovadas tecnicamente pelo Tribunal de Contas. A final, todo poder emana do povo, que, no caso, é representado pelos Vereadores e não pelos Auditores e Conselheiros. Demonstra segurança e serenidade frente à condenação da Justiça por Improbidade Administrativa, que o afastou do cargo somente por algumas semanas, influenciado pelas falácias da oposição e pelas intempéries do Órgão Ministerial. Porque você sabe: sempre cabe recurso, e uma liminar por enquanto...

Agora, com o acúmulo de experiência, de político fez-se artista de televisão. Entrevistado recentemente pelo repórter secreto do Fantástico, no quadro "cadê o dinheiro que tava aqui?", num caso de desvio de mais de 200 milhões de reais, envolvendo fraude em licitações e superfaturamento de obras em 80 municípios da Paraíba, com aquela mesma serenidade e um bigode já acinzentado - refletindo o ciclo da vida - assegurou para o Brasil que estava tudo em ordem, para nossa alegria...

E assim, segue na direção da porta estreita, pelo caminho tortuoso, mas recompensador, carregando sua cruz. Com uma confiança sempre inabalável de que "mil homens cairão a tua esquerda e dez mil a tua direita, mas tu... Tu! Tu não serás atingido!".

Marina Silva e eu

Ela é uma figura confusa, cujo perfil e personalidade diverge entre os próprios opositores. Para os que se dizem de esquerda, ela é uma traidora do movimento, que se aliou a grupos de elite, reacionários. Para os conservadores mais ferrenhos, ela não passa de uma comunista enrustida, que ainda mantém intimidade com o PT. Para ambos ela é covarde e dissimulada, e, por isso, ainda mais perigosa.

Para mim, e correndo o risco de também estar errado, ela é uma pessoa que viveu e aprendeu. Que se permite modificar com as experiências. Que vive em processo, em movimento. Que não admite a estagnação, cultural, intelectual, ideológica. Mudou de religião, de partido, mudou. Cresceu. Amadureceu. Melhorou. Marina não é a mesma pessoa do passado. E talvez não seja do presente. Marina aponta para o futuro.

Uma histórica ambientalista de carteirinha, que se permitiu entender e reconhecer, publicamente inclusive, a importância do agronegócio. Que há alguns anos tem a iniciativa de se aproximar de ruralistas para trocar figurinhas. Para a decepção dos ambientalistas, para a desconfiança dos ruralistas... Uma histórica militante petista, que não aceitou a esquerda pela esquerda, o poder pelo poder... A cartilha pela cartilha. Que não aceitou ficar com o ideal, mesmo quando o real lhe apresentava coisa distinta...

Decidiu declarar apoio a Aécio no 2º turno, em 2014, ainda sob o legado do Mensalão. Teria sido mais fácil se esquivar na omissão. E, naquele dia, na segurança secreta e confortável da urna, hastear uma das bandeiras, como muitos fizeram. Hoje, na égide da Lava Jato, e suas revelações sobre o tucano, diz que, se tudo houvesse sido revelado à época, não teria preferido nenhum...

Não demoniza partidos nem pessoas, mas também não santifica. Não elege culpados e inocentes, deixa isso para a Justiça. Não vê a punição como vingança, mas como reparação. Sem ódio, mas com compaixão. Apoiou o impeachment, porque entendeu que Dilma cometeu crime de responsabilidade, e que o Brasil não se sustentava mais com ela. Defendeu a cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, porque entendeu que cometeram, ambos, severas irregularidades na campanha. Seu partido protocolou o pedido de cassação do mandato de Eduardo Cunha, com êxito. Ela opina, ela se expõe, mas não histericamente como a gente gosta. O faz ao seu modo, mais discreto e educado do que o convencional. E, sobretudo, respeita e acata decisões. Como acatou a prisão de Lula, com responsabilidade e sem ressentimentos.

Descobri com o tempo, só com o tempo, que essas não são atitudes covardes nem dissimuladas, mas corajosas e autênticas... É tão mais fácil manter-se fiel aos ideais da juventude, mesmo quando o transcurso vida nos mostra coisas novas... Mudar é mais difícil do que permanecer igual. Vi Brizola morrer igual e isso me causou admiração há época. Chorei de emoção. Mas não penso mais assim. Não é possível que tudo o que a vida tem pra nos mostrar o faça até os vinte e cinco anos... Mas aos dezoito a gente já se sente pleno. Equivocadamente pleno... Aos trinta e cinco, sinto minha mente ainda confusa, ainda imatura, ainda em desenvolvimento... Talvez aos cinquenta ou sessenta eu vá montando o quebra cabeças, ou talvez nunca...

Nos cinco anos como Ministra do Meio Ambiente, no governo do PT, no auge do seu poder e da corrupção, conta que ninguém, ninguém se aproximou dela para sequer, sequer propor qualquer ilegalidade... Parece que as pessoas percebem quando a gente se permite, não é mesmo? Ao contrário do que alguns pensam, divórcio não significa necessariamente traição, o adultério sim... Ela se divorciou de muitas coisas, para se manter fiel... Sem mágoas e sem guerras com os antigos companheiros...

Mas essa não é a política que a gente gosta. Porque a gente não gosta da paz. A gente gosta da guerra. Da guerra santa. A gente gosta mesmo é de se sentir um soldado do bem, missionário da verdade. Nada como um demônio para fazer a gente se sentir um anjo... É bom triunfar diante da prostração do inimigo. Pisar na cabeça da serpente, sem pena...

A paz é sem graça, porque nela não há vencedor (para que ninguém perca). Ninguém fica por cima (para não rebaixar ninguém). A paz não cativa, é serena e madura. Já a guerra é contagiante, poderosa e cheia de vigor!

Sigo, Marina e eu, entre decepcionados e desconfiados... Sem muito alarde, sem muito ibope... Intimamente convencido de que o remédio para a radicalidade é a moderação...

Facção Cruzmaltina

"Um rei mal coroado,
não queria o amor no seu reinado,
pois sabia, não ia ser amado".
(Geraldo Azevedo)

Não conheço um único vascaíno que goste de Eurico Miranda. Aliás, não encontrei quem o detestasse menos que eu. Nisso, e somente nisso, consiste a minha esperança, que foi severamente massacrada na madrugada de hoje.

Essa era a noite da libertação, mas não... Essa era a noite da mudança, da virada, da guinada, mas não... Essa era a noite do futuro, mas foi do passado, que insiste em se fazer presente, porque ele insiste em se fazer presente...

O Vasco parou no tempo e permanece nas trevas. Não acompanhou a virada do século e o novo paradigma que marcou as administrações empreendedoras e dinâmicas dos grandes clubes brasileiros.

Essa nação, que mais vem parecendo uma facção, insiste em querer se encolher, cujo chefe perpétuo e paranoico mais se preocupa em reinar no gueto que chamou de seu - o São Januário -, relegando ao abandono e sofrimento os apaixonados que fazem a quinta maior torcida do Brasil, presentes nas cinco regiões e cinco continentes. Esse mafioso do charuto, que jamais fez um único gol ou sequer vestiu a camisa em campo, chegou a expulsar da tribuna de honra do estádio o nosso maior ídolo e goleador, Roberto Dinamite, apunhalando injustamente e sem perdão mais de 7 milhões de corações cruzmaltinos! Com quem está a honra, meus amigos? Quem merece o trono?

Não acompanho a política interna do Vasco, assim como a grande maioria. Para nós, é incompreensível como esse mandachuva ainda permanece comandando e destruindo o clube, sem que tenha sido jogado portão à fora, pelos braços democráticos do povo, há muitos anos... Não entendemos como esse falsário continua vendendo ilusões e promovendo corrupções, enganando e comprando pessoas e votos... Ninguém quer mais se aproximar dele (exceto o gueto). O time de basquete, por exemplo, planejava angariar R$ 8 milhões em patrocínio, mas não encontrou uma única marca que quisesse se associar ao clube! Apesar de tudo, a facção não sabe viver sem ele...

A administração do Vasco segue a toada da política do Rio de Janeiro... E, se assim continuar, e se continuar por muito tempo, essa facção poderá atrofiar o time de glórias em um clube de gueto, mediano e regional, com piscinas e quadras poliesportivas para os associados... Aos domingos, veremos Eurico Miranda sugando uma maminha na tradicional churrascaria centenária, sentado numa cadeira de plástico reforçada, sentindo-se um rei...

Quando deus se manifesta

Essa história deve ter acontecido há muito tempo, mas me lembro como se fosse 1º de julho de 2016. Naquela sexta-feira à tarde, fim de tarde, providencialmente a vida me reapresentara, anos depois, Fernando, no ponto de ônibus, de volta pra casa, para atualizarmos os papos. Entre deus e o diabo, ficamos com Nietzsche, mas depois ficamos com deus mesmo...

Dizia ele que deus se manifesta através da realidade, da forma como ela se apresenta. No entanto, muitas religiões atribuíam à deus, apenas uma parte da realidade. A outra parte que desagradava não seria portanto divina, mas reprovada como pecado. Se o mal, o ódio e a inveja não foram criados por deus, seria então obra de um outro criador?

Devaneios à parte, tomamos como exemplo as folhas diante dos nossos olhos, que quase me tocavam os ombros. Elas estavam feias, cheias de manchas escuras, ressecadas, meio queimadas e ásperas, estragando aquele verde naturalmente tão vistoso... Refletíamos que fomos formados para atribuir apenas o verde à deus, porque a parte ressecada a gente vê como um defeito, um erro ou um mal necessário. Porque não admirar também aquelas manchas como uma manifestação divina? E mais: porque o ressecado, escuro, áspero e queimado é feio?

Foi quando lembrei da sovaqueira e entendi o propósito daquele encontro. Era tão entusiasmante a conversa, que não havia dado conta de que estava triste e desconsolado. Contei que deus havia tristemente se manifestado até poucos minutos - na verdade ainda se manisfestara - através de uma realidade nua (nua não) e crua (crua sim), mas também ácida e desagradável.

Porque havia esquecido de pôr o desodorante naquela tarde... E, exatamente naquele tarde, haveria de pegar ônibus (o que é incomum), esperando-o ao sol do meio dia por quarenta e três minutos. Um sol tragicamente aberto e forte, sem nuvens ou sombra para amenizar os efeitos do esquecimento. Correria ainda por uns seis minutos, suando e cada vez mais suado, até a sala de aula pequena, apertada e com um ar condicionado bem precário...

Percebi a garfe nos primeiros minutos de clausura. Não apenas eu. Em um dia normal sairia imediatamente, alegando a morte do meu pai falecido em 2011. Mas aquele não era um dia normal. Fui obrigado a esperar a minha vez para apresentar não sei o quê, que era pra nota. Tentei não me mexer e permanecer com os braços colados ao corpo, mas era tarde. Não havia mais o que fazer, porque deus já havia se manifestado invisivelmente concreto para mim, os colegas e São Tomé. Restou-me perturbar a respiração dos alunos e professor por interminável hora e meia, até a vez e o fim da minha fala. Foi quando corri, envergonhadamente pensando que isso valeria uma crônica, se eu não tivesse modos...

Apesar de tudo, agradeci a Fernando pelas interpretações, e a deus por ter me ensinado - com caroços de milho, diga-se de passagem - a importância do desodorante. E, agora, é claro, com uma porção redobrada de aerosol! Afinal de contas, se deus pode se manifestar de várias formas, escolhamos a melhor: sem manchas, ressecamento e queimação, protegendo você com o cuidado e a naturalidade de uma folha sempre verde e vistosa...

Até com as pedras

Não poderia um animal amar. Pensar, ter sentimentos altruístas, possuir subjetividade... Aliás, somente o homem, porque "o homem é um animal racional". Portanto todos os outros, todos os outros seres viventes são irracionais, não passam de um adereço, um fantoche movido fisiologicamente pelos instintos... Na linguagem de hoje, um zumbi. Ou um automóvel, que, engatada a marcha ré, não tem como andar pra frente... Foi isso que a escola me ensinou: esse racionalismo limitado, essa ciência egocêntrica e petulante.

Amar um animal seria então ridículo! Coisa de gente limitada e carente, quase irracional, que quer se nivelar por baixo... Como me parecia ridículo chamar animais de filhos... Isso sinalizava para mim uma psicopatologia meio grave. Amor é troca, e não haveria troca sincera com um animal. Animal não tem sinceridade, não tem autonomia, mas instintos e condicionamentos. Condicionamentos condicionados pelo homem. O animal não se alegra simplesmente porque você chegou, mas porque vai receber comida. Esqueceu que, quando você chega, sempre dá comida? Tudo me parecia racionalmente bem explicado.

E, racionalmente, precisávamos de alguma coisa. Uma coisa para nos fazer companhia. Para fazer barulho quando estivéssemos sozinhos. Alguma coisa que nos desse responsabilidades, compromissos, algo que nos treinasse para alguém, que seria o futuro filho. Pois bem, compramos uma coisa, um shih tzu, e recebemos um amor... Amor gratuito... Como sou grato, quando a vida me desconstrói, para reconstruir de novo, modificado e melhor.

Já se foi um ano de vivo amor e dez meses de convivência... Amor maravilhosamente ridículo. Amor indescritivelmente recíproco. Amor mais sincero do que com a maioria dos homens. Amor inteligente e tolo, eufórico e preguiçoso, rebelde e obediente, alegre e triste, porque ele chora. De desgosto, de tédio, de bronca, de chuveiro... Às vezes eu engano ele, mas nem sempre. Ele me vence também. Ele é Eros e ele é alguém. Purinho. Todinho.

Nunca o bati, como minha mãe nunca me bateu. Choro em pensar que um dia não estará mais comigo (do jeito que a gente faz quando pensa no filho). E ainda assim choraria, pelo mesmo motivo, se ele vivesse duzentos anos... Acho que estou quase pronto para o segundo filho...

Amá-lo é humano; ser amado por ele é divino, porque o amor é verdadeiro até com as pedras, acredite. Até com as pedras...

E, sabe de uma coisa? Hoje ele vai comer leite moça.

Sermão

Controlar as emoções
Limitar a vaidade
Um'alma zen de verdade
Não cultivar ilusões
São lições que a vida ensina
Difícil é cumprir a rima
E dominar as paixões

O homem é bicho carente
É fraco, frágil e insano
Dá asas ao desengano
Não é mesmo inteligente
Se deixa levar por pouco
Não percebe que tá louco
E ainda fica contente

Essa vida é de lascar
Exige muito da gente
Desafia a nossa mente
Todo dia, sem cessar
E quem desiste e se cansa
E fica na vida mansa
Poderá se atrapalhar

Não é só cuidar do bolso
Da vida profissional
Se a nossa mente vai mal
Seja velho ou seja moço
O resto num anda direito
Não tem grana que dê jeito
Cê tá no fundo do poço!

Se apega com Jesus
Pensa sobre o que ele diz
Tu'alma cria raiz
Num novo caminho de luz
Ele sempre está contigo
Ele será teu amigo
Especialmente na cruz...

Meu amigo, meu irmão
Vou te dizer um negócio
Faça logo seu consórcio
Com as coisas do coração
Quem exala muito amor
Pra mulher, amigo ou quem for
Nunca terá solidão

Não vamos ter preconceito
Que maltrata muita gente
Aquele que é diferente
Também merece respeito
Se a gente parar, pensar
E de fato analisar:
Todo mundo tem seu jeito

Quem almeja a sanidade
Precisa se conhecer
Ser sincero pra valer
Encarar sua verdade
Esconder o que se sente
É covardia com a gente
É pura leviandade

Vou terminando o sermão
Que nem eu aguento mais
Pensa na vida, rapaz!
Se lembre: "nem só de pão..."
A mente também padece
A alma também carece
Que você estenda a mão.

Dona Maria

Soube, através de colegas do trabalho, que uma das ganhadoras do Prêmio Jabuti 2015 (o Oscar da literatura brasileira) morava em João Pessoa e se chamava Maria Valéria Rezende. Mas em João Pessoa? Por que não mora em São Paulo ou Rio de Janeiro? Por que a Paraíba? Sem conhecer sua obra, pesquisei sua vida na internet e vi que se tratava de uma biografia de ficção, difícil de acreditar...

Tramei esperá-la em frente ao seu prédio de luxo, na praia nobre do Cabo Branco, para, despretensiosamente, às seis da manhã ou cinco da tarde, encontrá-la por acaso nas caminhadas que fazem os intelectuais... E diria: "você não é a Maria Valéria Rezende? Gosto muito do seu trabalho, parabéns!". Quem sabe não ganharia cinco minutos de despretensiosa conversa, a fim de prefaciar meu futuro livro?

Como assim? Ela não mora na praia? Ela mora num bairro comum. Ela é freira e cuida de coisas domésticas num lugarzinho qualquer. Que falta de glamour...

Sem saber que eu planejava encontrá-la, uma nova professora, que se tornou uma nova amiga, falou sobre sua "prima" espontaneamente e, em poucos dias, estava eu nesse lugarzinho qualquer. Ainda nutri a esperança de que ela aparecesse com glamour, mas ela veio normal, e continuou normal... E conversamos.

E ouvi umas ficções, difíceis de acreditar: uma vida que tinha sentido, tinha ideais, tinha coragem, tinha vigor aos 70 anos (mais ou menos). Tinha beleza, tinha valor! E conheci outras valorosas normalidades, o André e a Regina. E conversamos sobre as nossas coisas, os contos, as crônicas, a poesia e a prosa... E tinha tanta beleza, e tinha tanto valor... E comemos um valoroso pastel normal, com recheio normal... A Regina não gosta de queijo coalho.

Aprendi que o valor do menino Jesus não são os reis, o ouro, o incenso e a mirra. O valor do Cristo é o Cristo. No meio dos cabritos, dos bezerros, no meio do mato, daquele cheiro de cocô...

E se eu perguntasse a Dona Maria qual o seu valor, ela responderia (ela seguramente responderia):
   - Ah, meu filho, o meu valor é o povo!
Os roceiros de Pilõezinhos, as putas de Guarabira, os índios da Amazônia...

Que me perdoem os Jabutis, mas o povo é fundamental.

Plantão Hardcore

Essa história é verdadeiríssima e ocorreu há muitos anos em João Pessoa. Uma médica de meia idade, divorciada e com a vida feita, cumpria sua jornada de plantões de uma forma no mínimo inusitada, surpreendente. Para aliviar o estresse (penso eu), a doutora levava para o trabalho umas fitas cassetes, das quais fazia uso nas oportunidades de ócio ou descanso, recreativamente.

Para cumprir sua programação, pedia as chaves ao funcionário da Central de Vídeos do hospital, e lá, divertia-se. Sendo que com filmes pornô, acredite. Fazia deste desejo um hábito, sem receios, como se estivesse assistindo Frank Sinatra ou o Balé Bolshoi. Bem diferente da mamãe na sua suíte, trancada a cadeado, às duas da madrugada, com os filhos dormindo no quarto do final do corredor, a inseguros mais de 15 metros de distância, correndo-se o risco de os meninos levantarem para ir ao banheiro ou tomar água, aumentando a aproximação... A doutora, não: gostava de locais públicos, por razões que só o Kid Bengala explica.

Da mesma forma que podemos escorregar na folha seca, cair com a cabeça numa pedra pontiaguda deixada na calçada e morrer de traumatismo craniano a caminho da padaria; a médica, em um de seus expedientes de intimidade, por um desígnio caprichoso do diabo e uma fatalidade inesperada da tecnologia, teve o seu vídeo hardcore retransmitido simultaneamente em todas as dezenas de televisores para as centenas de pessoas na maternidade: das enfermarias às enfermeiras; das salas de parto às de descanso, do pré natal ao puerpério, da recepção à UTI, do vigilante ao diretor, do papai recém nascido à vovó recém chegada...

Levaram uns cinco minutos para se darem conta de que não se tratava de um fato isolado. Levaram uns cinco minutos para saírem do constrangimento ao desespero. Levaram intermináveis cinco minutos para correrem até a Central de Vídeos, quando flagraram a doutora, inocente, desfrutando a olho nu daqueles malabarismos...

Você, o que faria? Sairia correndo eternamente, como o Forrest Gump, em direção às Ilhas Virgens? Fugiria naquele mesmo dia para as missões do Médico Sem Fronteiras na África Central? Ou (mais prático) se mataria ali mesmo, torcendo para não encontrar tão cedo com São Pedro ou o Senhor Jesus?

Conta a recontagem que ela reagiu com uma expansiva gargalhada, curtindo ser o "centro das atenções"... Há quem diga ainda que a protagonista adorava relembrar essa novela para outros colegas do trabalho, não-expectadores do episódio, sentindo-se uma estrela...

A Capela de Santa Zita

Hoje me aconteceu um episódio marcante. Voltei à mini capela de Santa Zita, para uma missa em memória do pai de uma amiga. Tudo lá é pequeno. Até a desconhecida santa foi empregada doméstica, tornando o lugar ainda mais simples e, exatamente por isso, ainda mais grandioso. Para mim, aquele lugar é mágico. Até as pessoas - acredite - parece que vão com roupa de casa... Acho que essas coisas me ajudam a experimentar algo divino naquele lugar. Mas não só por isso.

Lá, pela primeira vez, fechei os olhos para rezar com vontade. Lá, pela primeira vez, me dirigi a Deus com uma sinceridade assustadora. Lá, pela primeira vez, tive medo de ser amado. Lá, pela primeira vez, chorei desconfiando de que Deus pudesse existir. Lá, pela primeira vez, a minha vida fez algum sentido. Lá, me pertenci cristão e me batizei aos 18 anos.

Olhei as colunas... Olhei o concreto... Olhei as cadeiras... Olhei as pessoas... Fazia dez anos, mas tudo me parecia familiar... Mesmo assim fiquei discreto, meio tímido, acoado. Não porque estivesse amedrontado, mas talvez porque estivesse concentrado em absorver tudo de novo... Sempre achei que o espírito das empregadas domésticas estava naquele lugar... e continuava estando. Parece que quando a gente se sente mais humano, é quando se sente mais divino. Essa retórica é bonita. Enquanto apenas retórica, é apenas bonita. No entanto, desfrutar desta simples realidade é diferente, não dá pra explicar, a retórica até ofende...

Me aguentei até quase o final, mas não resisti. Cumprimentei uma velha aleijada cadeirante, mal vestida; entusiasmada e sorridente. Cumprimentei outra velha doente, de bengala; e em paz. Abracei a freira. Nunca nos vimos, mas já nos conhecíamos. Quase fraca, quase surda, quase morta; quase divina. Sorrimos e choramos. Amei. Contemplei uma bebê quase dormindo e quase tudo ali me deixou feliz. Exceto algumas lembranças que a gente deixa esquecer...

Sei não... talvez Deus exista sim... Sei não...

Trans

Fiquei um pouco impressionado quando ouvi Thammy (filha de Gretchen) falar da alta ocorrência de suicídio entre os transexuais. É bom explicar: o gay é um homem, que quer ser homem, se sente homem e gosta de outros homens. A lésbica, da mesma forma: ela gosta de ser mulher, se vê mulher, e deseja mulheres. Mas o trans é diferente.

São homens (biológicos) que se percebem mulher e querem ser reconhecidas como tal. E vice-versa. Ou seja, a identidade do sexo não corresponde à do gênero. Muitos - não todos - se sentem inconformados com a própria anatomia sexual: não suportam o seu pênis, não toleram sua vagina, repudiam os próprios seios e por aí vai... Esse conflito torturante, indesejável e incontrolável, somado às pressões da família, às tradições, à exigência dos padrões, aos conceitos e pré-conceitos da sociedade, levam muitos a tentar diminuir o sofrimento, preferindo a morte... Parece que são muitos...

Pensando mais, acho que às vezes somos meio trans também... Porque essa não identificação consigo mesmo nos acompanha, aqui e acolá, em tantas situações, em maior ou menor grau... Quando permanecemos naquele trabalho humilhante, quando suportamos aquele marido violento. Quando fazemos o curso que não gostamos, quando investimos na carreira que sabemos que não tem nada a ver com a gente... Quando namoramos sem paixão, quando casamos sem amor... Quando não temos coragem de expressar nossas reais opiniões, por medo de não concordarem com elas, para não descobrirem quem somos de verdade... Às vezes a gente esconde tanto, que o que sobra para os outros já nem nos revela mais...

Tem gente que também se mata quando olha para si e se dá conta que encaminhou sua vida para lugares, pessoas, atividades e rotinas... tão fora de sua órbita, que, perdido no tempo e no espaço, já nem se reconhece mais...

E a vida passou...

E não passamos de uma vaga lembrança de nós mesmos...

E não há mais tempo (nem memória) pra descobrir quem a gente era...

E a gente, simplesmente... Não é mais.

Eu sigo meu caminho torto. Meio trans, meio eu. Me perdendo no outono, e me achando - de novo - no inverno.

Viva Rainha

Há uns dez anos não rezava a Salve Rainha. Quando precisei, havia esquecido. Só lembrava que era a mais difícil de todas e que me deu muito trabalho quando criança… Parece, inclusive, que fui reprovado no teste da Salve Rainha, na escola… Talvez por isso só tenha me batizado aos 18, quando já estava treinado nos decorebas da vida…

Salve Rainha é como José de Alencar: é belo, mas a criança não entende. Nem o adolescente. O jovem até entende, mas não gosta. José de Alencar é coisa para adultos (e nem todos), assim como a Salve Rainha. Apresentar José de Alencar aos moleques do ensino fundamental me parece tão irracional e desestimulante como ensinar Salve Rainha aos pimpolhos da 1ª comunhão…

Minha querida sobrinha de 13 anos, invejável devoradora de livros, se prejudicou na escola, porque não suportou Iracema e tirou nota baixa. Por Deus ela não leu. Por Deus ela não se desencantou com a literatura. José de Alencar não escreveu para ela, mas para homens, intelectuais e presunçosos, barbados e recalcados, do século XIX.

Quanto à Salve Rainha, por Deus que Maria é do povo. Por Deus que é a pobre refugiada de Nazaré, a negra de Aparecida, a índia de Guadalupe, a senhora dos roceiros de Fátima… Por Deus não nos desencantamos com a religião. Porque se dependêssemos da Salve Rainha, a devoção ficaria a cargo dos homens, intelectuais, recalcados e paramentados doutores da lei do Vaticano…

Depois de uma breve análise sintática e semântica da Salve Rainha, adaptei a Viva Rainha, mais ou menos assim:

Viva Rainha, Mãe doce, misericordiosa, cheia de vida e nossa esperança. Viva!
Somos os filhos de Eva, rejeitados, e imploramos à Senhora.
Pedimos, gemendo e chorando em lágrimas.
Então vamos, nossa advogada!
Olha pra a gente, com esses olhos misericordiosos
E, depois dessa separação, mostra Jesus, o bendito fruto do teu ventre!
Ó clemente, piedosa, doce e sempre virgem, Maria!
Reza por nós, santa mãe de Deus,
Pra que a gente receba a salvação que Cristo prometeu.
Amém.

Heraldo

Heraldo pra cá, Heraldo pra lá... Heraldo era um personagem frequente nas narrações do meu pai. Expressava admiração... Curioso foi saber recentemente que ele trabalha comigo, no andar de cima e desde sempre.

Apareci anunciando o parentesco, enchendo de saudade os olhos de um grande amigo... Conversamos e conversamos muito, recontando a história, que, desde os tempos de escola até o primeiro emprego, se confundiam.

Os jovens paraibanos aventureiros, recém diplomados, se dispuseram a desbravar o país, com todo o idealismo, oferecendo suas técnicas na construção da lendária Rodovia Transamazônica - como um recruta que vai para a guerra com patriótico e inconsequente entusiasmo. Mas o destino os desembarcou antes, em Teresina...

Estudaram juntos e juntos prestaram vestibular. Juntos cursaram a mesma faculdade e juntos também passaram no mesmo concurso: Heraldo em primeiro, meu pai em segundo. Por vários anos estiveram assim, lado a lado, numa parceria verdadeira de jovens e amigos. Descobriram a vida, cobriram as mulheres, foram felizes...

Mas as parcerias se desfazem quase sempre, não é mesmo? Os divórcios superam os casamentos nesse nosso mundo tão civilizado e evoluído, quanto confuso e contraditório... Sem olhar para trás, meu pai continuou sua aventura nas curvas da vida, por direções difíceis de explicar, em sentidos quase que opostos...

Percebo um certo lamento, um questionamento sobre a separação... Penso que este discreto sofrimento, esta carinhosa dúvida, seja de todos nós, inclusive do meu pai... Não sei se devo pedir desculpas...

Na memória, persistem as lembranças, que não servem apenas para ser lembradas, mas sentidas, e sentidas como se fossem hoje...

Juiz das cavernas...

Como vascaíno prudente, evitei escrever a esse respeito, quando tomado pela frustração, raiva e indignação da final do último campeonato carioca, porque certamente o meu discurso não teria qualquer credibilidade. Seria mais uma apelação de perdedor, no meio de tantas outras... No entanto, penso que o contexto da Copa do Mundo seja o cenário ideal para expor a reflexão recalcada de alguns meses, especialmente por causa dos vários e importantes erros de arbitragem, testemunhados ainda nos primeiros jogos, beneficiando injustamente, ao que parece e inclusive, a minha querida Seleção Brasileira...

Não credito os equívocos dos juízes de futebol a fraudes, corrupção ou propina, muito embora saiba que isto ocorra... Baseio minha crítica na regra, não na exceção. O fato é que não podemos esperar grande coisa de alguém que tem a implacável missão de acompanhar, simultaneamente, o que ocorre dentro e fora do gramado, tendo que decidir de imediato, sem tempo para pensar e nem direito a replay, dispondo apenas de alguns amigos - e portanto também falíveis - auxiliares... Tudo parece compreensível se não fosse a tecnologia.

Por que os computadores entraram em todos os lugares do mundo, menos nos campos de futebol? Por que os recursos de imagem auxiliam todo mundo, menos os árbitros? Não há resposta ética para essas indagações... Não há justos argumentos que convençam o cidadão minimamente crítico dessa indecorosa resistência...

Há pelo menos 20 anos acompanhamos cenas patéticas: todo mundo assistindo ao ocorrido - com a precisão de uma calculadora, por vários ângulos e em tempo real - enquanto o único desinformado decide ao contrário de fatos instantaneamente esclarecidos, porque justamente àquele que mais precisa enxergar, não lhe é permitido ver... E o juiz fica por ali, solitariamente desconfiado, apitando ao natural, com cara de palhaço, com fama de ladrão, como se estivéssemos ainda no tempo da pedra lascada...

Não precisamos buscar soluções, pois elas já existem à pleno vapor. Basta aplicá-las e render-se à justiça e à verdade, como fazem o tênis, o vôlei e o futebol americano. No caso do futebol, cada treinador teria direito a, por exemplo, dois "desafios" em cada etapa da partida, para permitir que a tecnologia esclarecesse lances importantes e duvidosos. Isto não demoraria mais que o tempo de uma substituição, cobrança de escanteio ou tiro de meta. Não mais.

Por outro lado...

O futebol, você sabe
É razão e emoção
Um juiz desinformado
Só arranja confusão
E ainda leva, de quebra
Aquilo que mais detesta:
Sua fama de ladrão

E tem mais, camarada
Não fica só nisso, não
Um erro na "hora errada"
E sem direito a perdão
No jogo, na decisão
Causa uma mágoa danada
De partir o coração

E o torcedor apaixonado
Inconformado e descrente
Fica doente, recalcado
Martelando em sua mente
Que tudo seria diferente
Se o computador revelasse
O que ocorreu realmente

Mas a FIFA é indigesta
Insiste na contra mão
Só liga pra lucro e festa
E não sei por qual razão
Se por roubo ou tradição
Não se importa em retirar
O que da regra não presta

O jeito é apelar pra sorte
E pra São Sebastião
Que o juiz veja direito
Que não haja indecisão
Não há muito o que fazer
A nós, só resta torcer
Pro Brasil ser campeão!

Ninguém me cutuca

Gostaria que a gente pensasse mais em como vivemos. Na razão de ser de cada atitude mais elementar do dia a dia. Trata-se de uma espécie de "auto-análise", que faz muito bem e nos ajuda a enfrentar as contradições da vida em sociedade. Não farei comparações com o passado, porque não o experimentei. Deixo esta tarefa para os mais experientes...

Penso que nunca fomos tão exibicionistas como hoje, com essas redes sociais. Este blog reforça a argumentação, já que, se não quisesse "aparecer" com minhas idéias, escreveria em um diário pessoal, trancado a cadeado... Mas algumas coisas perdem o sentido e a autenticidade, especialmente quando se trata das "curtidas" e "comentários" no Instagram, Facebook e etc.

Tenho visto pessoas pedindo a outras para os curtirem nas redes sociais, a fim de que suas publicações façam o máximo de "sucesso" possível... Já vi gente dizendo: "curte, mesmo que não goste, para me ajudar"... Ou melancólico, porque sua foto (dentro do banheiro, no carro ou na academia) não foi "bem curtida"... As pessoas utilizam as redes sociais para pedirem admiração, reconhecimento e atenção nas próprias redes sociais! E não se pensa em outra coisa: todos querem ser artista de televisão, como se isto fosse a melhor referência para a nossa vida...

Não sei se preciso dizer que o virtual jamais conseguirá substituir, à altura, o real. A gente quer fazer sucesso publicamente, porque não o consegue privadamente, com quem está ao nosso lado, nos vendo de verdade... A gente quer "curtidas" - mesmo que falsas - porque talvez não receba um abraço caloroso, uma amizade confiável, um "eu te amo" inocente, um sexo menos performático...

Parece que a gente desistiu de "querer ser". Parece que a gente decidiu "parecer ser"... Tá todo mundo sempre sorrindo, sempre feliz, sempre alto astral, sempre bacana, sempre bonito e arrumado. Só que isso é deprimente, depressivo... Parece que perdemos o rumo de vez... Parece que desistimos de amar... Parece que desacreditamos de nós mesmos e desaprendemos a curtir as coisas boas da vida...

Aprecie com moderação!

IMPRÓPRIO PARA MENORES DE 18 ANOS.

"MAMA
(Valesca Popozuda e Mr. Catra)

Muita polêmica! Muita confusão! Decidi parar de cantar palavrão,
Então por isso, negão, vou cantar essa canção

Quando eu te vi de patrão, de cordão, de R1 e camisa azul
Logo encharcou minha xota e ali percebi que piscou o meu cu
Eu sei que você já é casado, mas me diz o que fazer
Porque quando a piroca tem dona é que vem a vontade de fuder

Então mama, pega no meu grelo e mama
Me chama de piranha na cama
Minha xota quer gozar, quero dar, quero te dar

Quando eu te vi no portão, de trancinha, tamanco e vestido azul
Logo latejou o meu pau e ali logo vi que piscou o seu cu
Puxei sua calcinha de lado e dei três cuspidas pro meu pau entrar
Então eu fiquei assustado, porque você só queria mamar

Então mama, pega minha vara e mama
Vem deitar na minha cama".

...

Perdoe-me! Não conseguiria apresentar o tema em discussão, sem mostrar a letra na sua íntegra, já que a intensidade, neste caso, é relevante. Mas não se apavore. Esta é apenas uma única canção, de uma única banda, de um único gênero musical, dentre incontáveis outros semelhantes que bombam entre nós... Seja nacional ou internacional, do nordeste ou do sudeste, na periferia ou nas baladas mais elitizadas.

De alguns anos pra cá, tenho tentado fugir aos moralismos e à hipocrisia. Gosto de sexo e quem me conhece sabe que também consumo conteúdos musicais (e não musicais) desta natureza. Mas é que "a diferença do remédio para o veneno está na dose"...

Não me atemoriza a existência desta música, deste CD, deste grupo musical, ou qualquer outro. O que me preocupa é a proporção que esta cultura representa no consciente coletivo de toda uma geração - especialmente de crianças e adolescentes - que estão se formando... Em muitas e muitas localidades espalhadas por todo o país, milhares e milhares de pessoas nascem, crescem, reproduzem (bastante) e morrem, sob a incansável overdose destes ensinamentos, condicionando, forte e inevitavelmente, a sua visão de mundo, de gente, de valores; suas escolhas, seu comportamento...

Defendo a liberdade - sexual e de expressão -, porque são manifestações naturais do ser humano e imprescindíveis à sua felicidade. Mas até a liberdade - principalmente ela - precisa ser desfrutada com racionalidade, responsabilidade e ética. A liberdade também pode contraditoriamente oprimir, aprisionar e escravizar, dependendo do uso que dela se faça. Uma caneta pode servir ao poeta, como ao assassino... É uma questão de adequação.

Não é a censura, a lei ou o decreto; nem a hostilidade, a discriminação ou a violência que mudarão essas coisas... Absolutamente. A vida é muito mais e muito maior que tudo isso. Só que apenas alguns tem acesso ao melhor que ela nos oferece. Somente a alguns é permitido apreciar e desfrutar da imensurável beleza que existe fora da caverna.

Quando assisti na TV a funkeira fazer sua performance, no programa de Ana Maria Braga, pensei que Rubem Alves, Adélia Prado, Leonardo Boff ou Frederico Mattos também poderiam tomar café com ela... Por que não?

Talento


Permitam-me puxar o saco da família (todos têm esse direito). Não faltam histórias para atestar a elevada capacidade intelectual do meu irmão Vinícius, colocando-o sobre as maiores médias. Das várias narrativas que me chegam de vez em quando, uma escapou ao ordinário.

Terceiro ano do ensino médio e a ansiedade preocupava naturalmente os vestibulandos da turma. Os novos conteúdos ministrados pelos professores, de difícil compreensão, só piorava a situação. Meu irmão, com seu jeito atento e distraído ao mesmo tempo, depois de ocupar a aula descontraindo com os colegas, divertia-se de vez em quando no quadro-negro, na hora do intervalo, explicando os assuntos ao seu modo: certamente de forma fácil e direta, com linguagem acessível, disfarçando o rigor complicado do método científico, ao qual os professores deviam obediência...

O evento caiu nas graças do povo, atraindo mais pessoas e repetindo-se com maior frequência. Seu talento, que misturava genialidade e simplicidade, enchia de gratidão e admiração o espírito dos alunos que aprendiam com ele. Quando perguntavam como poderia saber tudo aquilo, já que havia conversado a aula inteira, respondia humildemente: "eu estudo muito em casa".

A confiança nele crescera tanto, que alguns desistiram de certos professores, contando com o seu socorro na hora do lanche. A coisa tomou maiores proporções, fazendo com que, espontaneamente a turma providenciasse um abaixo-assinado, requerendo-o como professor regular... A direção ficou numa situação constrangedora, sendo obrigada a responder o óbvio: que ele não poderia atuar como professor, porque não era formado - afinal de contas, possuía apenas o ensino médio incompleto...

De fato, durante a minha infância, também explorei seus conhecimentos. Gostava de ensinar de tudo, o danado, até os afazeres mais elementares... Observava muito, refletia bastante e chegava a conclusões próprias, sempre convincentes. Lamento ter abandonado sua vocação, com a faculdade e o trabalho. Mas, não sei não, acho que ainda dá tempo de investir na carreira...

Tô com medo.

Tô com medo. Do futuro. Do Brasil. Tenho feito algumas reflexões, que me levou a perspectivas preocupantes. Talvez não faça sentido, mas tenho compartilhado algumas loucuras neste espaço, e sem ressentimentos. Uma "nova" manifestação ideológica está sendo gestada no país e poderá eclodir em dez ou vinte anos. Vou explicar.

A redemocratização do Brasil e todo o processo político de combate à ditadura nos anos 80, a efervescência do movimento sindical, a criação do PT, lançaram sementes para o nascimento de uma nova geração de inclinação socialista, que haveria de se formar na década seguinte. Nos anos 90, as coisas continuaram e se desenvolveram progressivamente: o crescimento do PT, a visibilidade dos Direitos Humanos, a encantadora Teologia da Libertação, a intelectual colaboração acadêmica, o desgaste do governo FHC, consolidaram os novos socialistas de um novo tempo, cheios de esperança com a eleição de Lula.

Mas doze anos conseguem desgastar qualquer governo. O evento histórico do mensalão, o aumento da insegurança, a contestação aos Direitos Humanos, as assombrosas manifestações sem precedentes, deixaram uma parcela da juventude carente de uma oposição que praticamente não existia. E um importantíssimo ingrediente apimentou a relação: o orgulho gay mexeu com quem estava quieto, trazendo para a disputa a numerosa e coesa comunidade evangélica, conquistando, pouco a pouco, também, os católicos. Isto fará toda a diferença...

Vamos combinar que a juventude no Brasil é, em geral, despolitizada e desinteressada. O pouco que se encontrava, formavam aos grupos de esquerda, taxados de radicais e alienados. Mas a coisa está mudando, amigo. Se faltava conteúdo à oposição, o professor Olavo de Carvalho oferece. Ministrando seu curso de filosofia online a milhares de jovens em todo o país, com duração de cinco anos, ele tem arrebatado incontáveis discípulos fiéis, encantados com a sua eloquência e convicção, para a formação de uma militância declaradamente de direita (e quanto mais direita, melhor). Pastor Silas Malafaia, Padre Paulo Ricardo, Rachel Sheherazade, Lobão e tantos outros lubrificam a engrenagem dessa engenhosa roda gigante ideológica, sempre catalizada, é claro, pelas redes sociais.

Quanto aos novos esclarecimentos liberais, apoio. Nada deve ser tão verdadeiro e certo, que não mereça contraditório. Só que, se por um lado, "quando um não quer, dois não brigam", por outro, quando os dois querem, não há quem empate... Aliás, empate é justamente o que eles não querem, pois só a vitória os interessa. No seu tempo, com a mais consciente boa-fé, lutarão enfurecidamente, cada um pela sua vitória. A qualquer custo e até as últimas consequências...

Olhando para o futuro, sigo meio amedrontado. Adotando esse perfil moderado, xôxo, que não agrada a ninguém.

Em transição...

Os idosos lembram nostalgicamente das coisas como eram no seu tempo. O que se fazia, o que não se fazia, o que existia e o que não existia... Muita coisa caiu em desuso e muitas outras coisas ergueram-se em uso (para cair depois, mas só depois). Talvez por causa da velocidade tecnológica - que atropela a cronológica -, a minha geração dos trinta (um pouco mais ou um pouco menos) já começa a olhar para trás, sentindo-se ultrapassada...

Vivemos no antes e no depois desta muito bem definida "revolução da informação ou da comunicação". Experimentamos, no auge da nossa mocidade, o miolo destas tão significativas transformações, que marcarão para sempre a história e afetaram sensivelmente o dia-a-dia dos grupos humanos de todas as classes sociais - o cidadão da periferia frequenta a lan house e também adquiriu o seu smartphone. Mudaram-se os padrões, mudou-se o paradigma.

Não há referências nem modelos. Não somos os mesmos nem vivemos como os nossos pais (em certo sentido, é claro)... Inauguramos um novo jeito de fazer, de viver e de pensar, compulsoriamente afetados pelo turbilhão de informações eletrônicas e tecnologia galopante. Recebemos as novas influências, mas ainda fincamos a memória no passado da nossa velha infância. Somos ao mesmo tempo uma coisa e outra, correndo o risco de não ser nem uma coisa e nem outra... Ainda brincávamos nas ruas, ainda conversávamos com os vizinhos, ainda escrevíamos cartas...

Porém, deixo para o final aquilo que talvez me pareça mais perturbador. Vimos cair o muro de Berlim. Isto significa que ainda o vimos de pé. Ainda herdamos esta concepção dual das coisas, do capitalismo x socialismo, céu x inferno, nacional x internacional, homem x mulher, igual x diferente... Nossa mente ainda se vê agarrada nessas coisas, cujo conceito não traduz os novos paradigmas. Somos incapazes de pensar livremente para além de tudo isso...

Esta geração cumpriu com mérito o seu papel. Fez a transição e nada mais. As soluções, as saídas, os caminhos; estes ficarão para os nossos filhos...

Para não dizer que não falei com flores...

Recebemos uma plantinha, que fora distribuída a algumas pessoas da família. Era pequena, num vaso ainda menor, para decoração de mesa, talvez. Minha esposa comprometeu-se a regá-la, só que ao fazê-lo, conversava com o vegetal, oferecendo-lhe palavras carinhosas...

Muito esquisito. Fui ensinado a falar somente para quem tem ouvidos. Mentira!, porque nem com os animais estabeleci este tipo de interação. Me restringi a gente mesmo, e nem todas... "Dizem que ajuda", justificava ela, convidando-me para aquela cena bizarra... Balbuciei uma ou no máximo duas palavras quaisquer, por insistência, e me retraí, porque aquilo era ridículo.

A plantinha nos chegou murcha, meio morta (se é que isso existe). Mas começou a revigorar. A reagir e botar flores, que sinceramente não cabiam para tão poucos galhos... Alegrou a mesa, a sala, a casa. Alegrou as paredes e as pessoas... Alegrou o espírito. Creditou-se o sucesso ao diálogo, já que os outros regaram, mas só a nossa vingara àquela altura.

Pensei como a gente é seletivo e comedido para o afeto... A gente dá amor, como quem dá dinheiro: fazendo cálculos. Como se isso fosse diminuir a economia da nossa alma, para favorecer a de terceiros (como uma transferência bancária entre corações da mesma espécie)... A gente ama como investimento: para receber depois, uma herança, uma pensão, nem que seja uma caixa de remédio das mãos dos filhos crescidos...

Parece que amar não segue a lógica da matemática - ou talvez lógica nenhuma. Porque dar, neste caso, não revela subtração, mas multiplicação, como a das flores, como a do pão... É ver para crer!

As preocupações do dia-a-dia nos fizeram esquecer da plantinha, que murchou de novo - murchou que faz pena. Só que, desta vez, sou eu quem vai cuidar dela. Vou conversar, mas em segredo, porque preciso conservar a minha reputação racionalista.

Tatinga...

Me dou muito bem com minha sobrinha. Construímos uma amizade sincera desde os seus primeiros meses de vida. Acompanhei tudo, só não a dei de mamar... Ela sempre me recebe com euforia em sua casa e geralmente brincamos um pouco - de qualquer coisa, em qualquer lugar. Mal fala, mas já sabe habilidosamente o que quer (e especialmente o que não quer).

Numa dessas estávamos no sofá, meio confusos, sem criatividade, procurando o que fazer, até que eu executei a primeira ideia que me veio a cabeça: assoprar. Soprei os olhos dela (de leve), causando aquela inquietação natural, mas fazendo-a rir... Ela revidou. E ficamos assim, lá e lô.

Com o tempo, ela foi se irritando e pedindo pra parar, divertindo-me ainda mais. Claro que continuei, sendo que agora com mais entusiasmo. Ela foi meio que se desesperando, me empurrando, virando o meu rosto, dando tapas, jogando como pôde... A coisa começou a ficar sem graça, até que eu parei (um pouco constrangido).

A mãe e a tia cuidadosas, porém intrometidas, perguntaram o que havia ocorrido, quando ela ingenuamente esclareceu, para não deixar dúvidas:

   - Tatinga...

E abanou as narinas com sua mãozinha direita, reforçando com uma bela e convincente careta.